O Belo Antônio, de Mauro Bolognini

O que encontramos no Antônio Magnano de O Belo Antônio é muito diferente do que vimos, repetidas vezes, no Marcello Rubini de A Doce Vida. Mesmo envoltos em tanto amargor, o primeiro prefere o interno, o silêncio, o quarto fechado; o segundo ainda grita à sua maneira: sai com mulheres diversas, vive suas aventuras, libera sorrisos.

Marcello Mastroianni interpretou ambos em 1960. Magnano para Mauro Bolognini, Rubini para Federico Fellini. O futuro diretor Pier Paolo Pasolini contribuiu com o roteiro de ambos, ainda que não tenha sido creditado em A Doce Vida. Os dois filmes falam de cinismo, cada um à sua maneira, ancorados em personas que Mastroianni belamente construiu.

A Doce Vida apresenta-nos toda a transformação da sociedade romana no pós-guerra. O Belo Antônio volta-se a uma sociedade que luta para resistir às mudanças, com seus filhos que já viveram na cidade grande e cujas histórias passadas são silenciadas ou ditas em segredo. Antônio talvez tenha vivido alguma transformação nos dias que passou em Roma, ou apenas se descoberto. Ele volta para sua pequena cidade na Sicília e se fecha.

Antônio é questionado pelo pai sobre um futuro casamento. Como um rapaz solteiro, tão belo, pode ainda estar sozinho? A família faz pressão. Certo dia, ao se deparar com a foto de uma bela moça (Claudia Cardinale) com quem poderia casar graças a uma união arranjada entre famílias, ele aceita o desafio. O problema é que Antônio não consegue sentir prazer sexual com mulheres; pode, como o próprio afirma, apenas amá-las.

Ou simplesmente não pode fazer sexo com quem ama, como se, para ele, fossem intocadas essas belas imagens, essa ideia de pureza. Nesse mistério no qual o homem fecha-se, alguém imaginará que se trata de impotência. Sabemos, no fundo, da homossexualidade calada, da opção do roteiro em não citá-la, e que não é dela que trata o filme de Bolognini.

Para a família siciliana conservadora, o filho impossibilitado de fazer sexo com uma mulher e produzir descendentes é algo impensável. Se confirmado, será vergonhoso para o pai (Pierre Brasseur) que, para salvar a honra da família, seus genes, aceitar morrer em um bordel, em sexo, nos braços de uma prostituta; ou para a mãe, que se cobre com véu preto após a morte do marido e tenta buscar uma explicação para a frieza do rebento.

O filme, baseado na obra de Vitaliano Brancati, não é sobre Antônio. Bolognini prefere o que está ao redor, as tradições que não aceitam desvios, que não suportam senão a repetição dos velhos papéis aos quais Antônio – ainda que se esforce – não pode servir. “Tudo que é antigo pelo menos é nobre”, afirma o primo Eduardo (Tomas Milian), que também passou um tempo em Roma e descobriu que os homens corrompem-se e se deixam corromper.

O primo faz um elogio à velha Sicília; prefere seu aspecto pobre à opulência romana. E o que pensa Antônio? Difícil saber. Mastroianni pode ser sentimental e profundo sem se deixar agarrar. Conta ao primo, em um de seus passeios de carro, que ao fazer sexo com uma mulher pela primeira vez, após os 18 anos, começou a ter crises de vômito. “Desde aquele momento não consegui fazer de novo.” E quando finalmente conseguiu consumar o ato sem sentir náuseas, sentiu-se feliz e “normal”. Nunca saberemos se os relatos são inteiramente reais.

Antes de se transfigurar em uma rocha, na simbologia proposta pela fusão de imagens no instante final, Antônio ainda conversa com o primo ao telefone. Pouco antes, a criada da casa, Santuzza (Patrizia Bini), revela-se grávida. Antônio é apontado como pai e não desmente. A farsa oferece ao belo rapaz a moldura que a sociedade espera; do primo, na mesma ligação que encerra o filme, ouve que agora pode ser como todos.

Pode ser alguém este Antônio que amava as mulheres sem deflorá-las e chegou a vomitar em busca da virilidade com a qual sonhava seu pai. Sobra para a criada sem voz a salvação da honra, para que a mãe possa gritar, de sua janela, a “verdade” sobre o filho. Diferente do desfecho de Marcello Rubini, não há aqui uma jovem moça loira, na praia, pela manhã, para sorrir e sugerir, ainda que longe da perenidade, certa esperança.

(Il bell’Antonio, Mauro Bolognini, 1960)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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Veja também:
Rogopag – Relações Humanas, de Rossellini, Godard, Pasolini e Gregoretti

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