A Longa Noite de Loucuras, por Antonio Moniz Vianna

Em La Notte Brava, oitavo filme de Mauro Bolognini, acentuam-se os progressos evidenciados pelo diretor em Giovani Mariti (Jovens Maridos). Ainda é felliniana, ou melhor, vitelloniana a linha; apenas o diretor já chega a Roma, vindo da província: da fotogenia de Lucca – e a mudança de décor compele-o a uma reformulação de espírito. Os “giovani mariti”, evidentemente, estavam mais próximos dos “vitelloni”, eram menos irresponsáveis (ou então de uma irresponsabilidade sem vício) do que os jovens expostos à contaminação natural da metrópole de La Notte Brava: os “ragazzi di vita” de Pasolini. Dos quatro filmes da associação de Bolognini com o escritor – iniciada em 1957 com Marisa la Civetta (Os Namoros de Marisa) – visivelmente é La Notte Brava o que mais reflete a influência pasoliniana. Um filme depois, através de Brancati, estaria Pasolini limitado à função de adaptar, surgindo ainda Bolognini em linha mais independente – e com o filme (Il Bell’Antonio) que lhe dá, no cinema italiano de hoje, um lugar de primeira fila.

Saiu La Notte Brava de episódios romanos arrolados por Pier Paolo Pasolini em seu livro Ragazzi di Vita. O próprio autor assume a responsabilidade das alterações, como principal cenarista do filme. Não há, a rigor, uma intriga a que se subordine a narrativa. Esta, assim, pode soltar-se, para um ziguezague de crônica, às vezes como que até sem assunto, iniciada numa tarde e delirando a noite toda – uma só noite, “brava”, quente, no verão romano. Longa noite de dissipação, de violência & vigarice, de erotismo – da ânsia de encher dessa maneira o vazio, e de insatisfação quando a noite termina.

Ai se fazem outras relações, como a desses “ragazzi di vita” com os desajustados jovens franceses de tantos filmes suspeitos de serem o produto de dupla inspiração, a “vitelloniana” e dos “selvagens” e outros transviados – rebels, Brandos & Deans – de Hollywood. Mas a tese moral não é uma opção (Les Cousins: Os Primos) nem uma concessão (Les Tricheurs: Os Trapaceiros). Talvez esteja próxima, somente da de Les Dragueurs (Os Libertinos), em esquema onde o dualismo noite-dia funciona como vetor da parábola que conduz a história à demonstração de que todos aqueles esforços (golpes, furtos, brigas) haviam sido inúteis – desperdício de energia. Quando começa a nascer o dia, o último vigarista atira ao chão, em gesto típico, as últimas 500 libras. A nota vai misturar-se, embaixo do viaduto, aos detritos, dos quais já não é mais possível distingui-la.

Todas essas relações, comprovadoras da universalidade do fenómeno espelham a preocupação do cinema, não importa se por indústria, com os excessos de uma parte da juventude que se vai corrompendo, se já não está irremediavelmente corrompida. Mas não é por isso que merece do cineasta um olhar em que se perceba sequer antipatia. Bolognini, mas não todos os outros, não flagela o seu transviado trio – Laurent Terzieff, Franco Interlenghi e Jean-Claude Brialy; até permite que eles flagelem jovens e belas do trottoir romano, na Passegiatta Archeologica ou na periferia da cidade. Não os aplaude, não os censura. Um pequeno contrabando, uma ou outra hipocrisia, um furto, os “combates” noturnos, a farra pela farra, o exibicionismo (ou mais a sensação de se sentirem, por uma noite, ricos) – o que fazem só é digno de registro. O conselho apenas os enfureceria; aos que os veem, e poderão segui-los, o filme não se dirige com mensagem, que pode ser facilmente repelida, mas lhes permite que concluam se tudo será o caminho da fuga ao vazio.

E não enfeia esse caminho. Ao contrário, a predatória marcha dos três rapazes se faz também sobre os corpos admiráveis de quatro italianos e uma francesa – esta Mylène, em momento de mistério-erotismo, Antonella, Elsa e Anna-Maria, e nelas às vezes a divina vulgaridade das prostitutas, e Rosanna, que dança e ainda não se prostituiu, mas está por um fio.

É um bom filme, não mais que isso – o mais de que se revelaria capaz, um filme depois, no admirável Il Bell’Antonio, o diretor Bolognini.

Correio da Manhã (14 de maio de 1961)

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