Ataque dos Cães, de Jane Campion

As flores de papel nada têm a ver com o universo talhado à forma do protagonista, Phil Burbank (Benedict Cumberbatch). Essas flores foram preparadas com grande cuidado pelo jovem magricela Peter (Kodi Smit-McPhee), filho da dona do restaurante (Kirsten Dunst) no qual Phil e seu séquito grosseiro e sujo vão para terminar o dia de trabalho.

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As flores apontam ao que Phil não é – ou não quer ser. É a sensibilidade, em Ataque dos Cães, que se choca com a necessidade de lama sobre o corpo, de esconderijos à mata, de conversas sobre o antigo modelo do homem macho no qual o protagonista espelha-se, um tal Bronco Henry, um clichê que alimenta a criatividade dos caubóis desse espaço.

Primeiro, um homem. Rígido, difícil, forte, capaz de colocar ordem no rancho. Desbravador se necessário. O homem que Phil quer ser ou já teve. A quem precisa prestar homenagem não com um busto, mas com uma cela, uma vela e um altar para manter viva a memória dos dias com ele em meio às montanhas e suas noites frias.

O culto ao homem – ao homem de verdade que Phil acredita ser – não encontra brecha no trancado Peter. Jane Campion, a partir do livro de Thomas Savage, fará do encontro desses diferentes uma revelação sobre a natureza dos homens: o que pretendem ser e o que são de verdade, o que aparentam e o que escondem – ou não – em suas relações.

O rústico diz ao menino que foi Bronco Henry que o ensinou a cavalgar e “a usar os olhos de forma diferente de outras pessoas”. Em seguida, ele leva o garoto a encarar a colina. “A maioria das pessoas vê apenas uma colina.” O jovem surpreende: encontra algo, uma imagem, a forma de um cão latindo. Ele pode encontrar formas que escapam aos outros, não a Phil. E assim o filme concebe o que os une: o poder do olhar.

Também o poder de conferir forma ao caos. Alguns chamam isso de imaginação. No caso do caubói, o culto àquilo que não pode ser apenas uma rocha ou um amontoado de terra, ainda que o mesmo filie-se à maioria crente na visão bruta, no caos. Cultua seu velho professor morto, seu modelo de olhar, ao qual se une para incorporar a visão.

O que talvez explique o motivo de amar sem dizer, ou sem assumir a si mesmo. Quer a natureza do outro, seus objetos e assim se manterá vivo para estar entre grandes animais, a liderar um bando, a vestir o papel do macho que não teme a doença dos bovinos e humilha o efeminado para garantir a gargalhada dos outros.

Peter é levado a viver perto de Phil quando sua mãe casa-se com o irmão desse novo colega, George (Jesse Plemons). O menino perdeu o pai, um suicida, e se interessa por medicina. Depois de caçar um coelho, sacrifica o animal e o disseca para estudá-lo. Peter dá ao rompimento o sinal inverso ao nos dado por Phil quando castra um boi: sua visão é científica, cirúrgica, impessoal; a do outro sempre vem carregada de emoção e simbolismo.

São muitos os momentos em que Campion filma suas personagens entre a paisagem. São engolfadas por suas sombras, caminhos, montanhas, por suas curvas de lama e madeira, por esse ambiente impregnado pela velha América, ou velho mundo, por esse sentimento de local perdido ao qual, a certa altura, o governador é levado para jantar. Ali, as relações polidas e o teatro dos gestos fracassam: Rose (Dunst) não consegue tocar o piano que seu marido deu-lhe; Phil quebra o protocolo e surge sujo entre os convivas.

Peter é o mais real entre todos. E dele não esperamos muito em boa parte dessa história: pensamos se tratar apenas da vítima, inteligente e incompreendida. Campion tampouco lhe dá alma demais. Ele faz perguntas, é levado por Phil a ambientes reservados e ousa tocar seu braço quando o protagonista deixa ver um pouco de seus sentimentos.

Ataque dos Cães tem ganhado paralelos com outro grande filme de Campion, O Piano. Em ambos, estamos em universos cujas regras são dadas pelos homens, no trançado do couro ou nas pancadas do machado. Mas se em O Piano o olhar é da mulher, em Ataque ficamos com o do sexo oposto. A despeito de Rose, o drama volta-se a Phil, à sua alma atormentada e ignorância transbordante. Não raro, ao seu ressentimento em relação aos outros, que, bem ou mal, ainda conseguem dizer quem são.

(The Power of the Dog, Jane Campion, 2021)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
O Piano, de Jane Campion

Os 20 melhores filmes de 2021

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