“Prenderam Suzanne”: a censura ao filme de Jacques Rivette

“(…) quando um primeiro trecho de A Religiosa, o filme recém-concluído, é mostrado na televisão, ninguém se levanta em protesto. E a Comissão de Controle dos Filmes, por duas vezes, dá opinião favorável por ampla maioria. Porém, desde janeiro de 1966, uma petição pela proibição do filme circula nos meios católicos, principalmente nas escolas particulares. Diversos inquéritos chegaram a Alain Peyrefitte, ministro da Informação, depois a seu sucessor, Yvon Bourges. As pressões multiplicam-se cada vez mais abertamente para obter a proibição do filme de Rivette. Frédéric-Dupont, deputado e conselheiro municipal de Paris, fez uma intervenção pessoalmente nesse sentido durante uma sessão do Conselho Municipal da Capital dedicada aos problemas da pré-censura aos filmes distribuídos em Paris. O caso é portanto semioficial, há pelo menos três meses, quando, em 1º de abril de 1966, Yvon Bourges anuncia sua decisão de “proibir Suzanne Simonin, la Religieuse de Diderot, tanto no que se refere à exportação quanto à distribuição na França”. Bourges cedeu aos meios católicos, temendo o escândalo, receando manifestações que “poderiam degenerar”, e toma sua decisão justamente quando, recém-nomeado, quer demonstrar sua autoridade. Logo, a proibição é inteiramente política.

Antoine de Baecque, crítico e historiador, em Cinefilia (Cosac Naify; pgs. 387 e 388).

A censura ao filme de Rivette desencadeou reações de diferentes críticos e cineastas, entre eles Jean-Luc Godard, que “vê o caso de A Religiosa, de Rivette, como a perda de um estado de inocência, o fim de uma juventude: a entrada no país dos adultos, onde estes últimos sabem ‘ser covardes, ter medo’”, observa, no mesmo livro (pg. 390), Baecque.

A proibição ao filme caiu em julho de 1967. Esse caso de censura é considerado um dos três primeiros acontecimentos que retiraram a cinefilia de seu estado de sonho, do interior das salas de cinema, e a lançam a um conflito aberto, nas ruas – seguido pelo caso Langlois e pelo Maio de 68. Abaixo, Rivette dirige seu elenco nos bastidores de A Religiosa.

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