Acorrentados, por Antonio Moniz Vianna

The Defiant Ones é, antes de mais nada, um ato de coragem de Stanley Kramer. Ainda não se havia extinguido o eco provocado pelos incidentes de Little Rock quando Kramer adquiriu a história de Nathan E. Douglas e Harold Jacob Smith. Essa história, ou melhor, esse original screenplay aborda de frente e do primeiro ao último instante o preconceito racial. Individualiza-o, no entanto, e isso, que talvez enfraqueça um pouco a posição assumida resolutamente pelo realizador, não torna menor o impacto dramático da narrativa – nem o  afasta de sua mensagem. Esta, partindo de dois homens, dirige-se a todos os outros: o que separa os homens é a falta de compreensão.

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Para que o branco e o preto se compreendam, The Defiant Ones prende-os à mesma corrente, obriga-os a viver, ombro a ombro, os mesmos perigos, a mesma ansiedade, os mesmos temores. Depois disso, já quebrada a bigorna e martelo à corrente, eles continuam unidos, agora pela amizade e pelo respeito mútuo, não importando mais a diferença de cor. E não importa também a Stanley Kramer que sua mensagem – como qualquer outra – não seja aceita por toda a gente. O cinema, grande manipulador da opinião pública, tem feito muita coisa contra o preconceito racial (e nada a favor, pelo menos ostensivamente). Nem por isso a perseguição dos negros terminou no Sul dos Estados Unidos, onde nem todos esses filmes puderam ser exibidos e onde o referido episódio de Little Rock ocorreu apesar da produção de fitas como No Way Out (O Ódio é Cego) e Intruder in the Dust (O Mundo não Perdoa). O importante, porém, é que o problema continue a ser tratado no cinema.

Foi em Home of the Brave (Clamor Humano) que Stanley Kramer abordou, pela primeira vez, há dez anos, a questão do preconceito antinegro. A audácia do produtor também se evidenciaria em muitos outros terrenos, com filmes como The Men (Espíritos Indômitos), sobre os paraplégicos de guerra, e High Noon (Matar ou Morrer), opondo o indivíduo, incorruptível, à coletividade corrompida pelo medo, pela falta de solidariedade, pela omissão no momento crítico. Em The Defiant Ones, Kramer volta ao campo em que, além dele, se ensaiaram outros realizadores filiados à linha liberal do cinema americano, entre os quais Mankiewicz (No Way Out), Brooks (Blackboard Jungle: Sementes de Violência; Something of Value: Sangue Sobre a Terra), Kazan (Pinky: O que a Carne Herda), Wise, Robson, Daves e alguns outros, inclusive os que, sem uma fita inteiramente dedicada ao problema, sempre condenaram de passagem a fricção racial.

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Como diz o diretor, The Defiant Ones “é exatamente o que o título indica. É uma história de desafio e controvérsia, cujos protagonistas são dois fugitivos de uma penitenciária rural, um branco e um negro, um odiando a cor do outro, mas acorrentados juntos quando tentam escapar”. Tony Curtis e Sidney Poitier, os dois presidiários, aproveitam a queda ribanceira abaixo do carro-transporte, do qual saem ilesos, para empreender a fuga através do pântano. O filme é o relato dessa fuga difícil, desesperada.

A corrente parece funcionar como um símbolo: por mais que um odeie a cor do outro, os homens, os brancos e os pretos, estão juntos e têm de aprender não apenas a se tolerarem, mas a se tornarem amigos. A princípio, reclamam: Tony e Sidney chegam a trocar socos e quase se estrangular, mas o acordo é a única solução: não adianta o branco querer ir para o Sul e o preto obviamente para o Norte, nem escapará o que matar o companheiro. Têm de seguir juntos – a corrente os prende. E seguem, dividindo as dificuldades, a tensão, o poste onde os amarram os homens de pequena comunidade para o linchamento que Lon Chaney Jr. consegue impedir. Atingem, por fim, uma fazenda e aí podem comer, dormir um pouco e quebrar a corrente. Ainda não estão livres: a viúva (Cara Williams), desesperada em sua solidão, quer usar Tony para escapar e, para isso, trai Sidney. Já é tarde: o branco e o preto já se compreendem, já são amigos. A diferença de cor já não tem nenhuma importância para eles, quando tudo termina num spiritual. É o silêncio, brusco e áspero, no último fade-out de The Defiant Ones. E é a provocação que os dois protagonistas lançam a todos os racistas – é o desafio que existe desde o título.

Dos três filmes “oficialmente” dirigidos por Stanley Kramer, The Defiant Ones é o melhor, mesmo porque os outros dois, Not as a Stranger (Não Serás um Estranho) e The Pride of the Passion (Orgulho e Paixão), embora interessantes, divergiam em muita coisa do ritmo e do sistema empregados pelo produtor nas obras que fizeram a sua carreira uma das mais íntegras de Hollywood. Volta Kramer à “política” antiga, ao orçamento pequeno, ao elenco despretensioso. Não volta, porém, à altura de muitas das fitas em que dirigiu os seus diretores: The Defiant Ones, não sendo uma obra excepcional, não pode rivalizar High Noon (Zinnemann) e The Wild One (O Selvagem – Laszlo Benedek). Falta-lhe aquele elemento imponderável, um sopro que leva uma obra à categoria superior.

Tudo está bem pesado e medido, com honestidade e rigor em The Defiant Ones – tudo funciona. Os intérpretes – Tony Curtis progrediu mesmo, Sidney Poitier é o bom ator de sempre; bons coadjuvantes: Cara Williams, Lon Chaney e Theodore Bikel, Charles McGraw e Carl “Alfalfa” Switzer, os três na perseguição dos evadidos, a que o último adiciona, graças a um rádio portátil, um bocado de jazz; a fotografia de Sam Leavitt, o montagem de Frederick Knudtson. Tudo faz um bom filme de The Defiant Ones. Com um pouco de sorte, o resultado recompensaria inteiramente o talento e a integridade de Stanley Kramer.

Correio da Manhã (23 de abril de 1959)

Veja também:
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