Sorrentino não é Fellini

Quando Paolo Sorrentino lançou A Grande Beleza, a crítica adiantou-se para dizer que se tratava de seu A Doce Vida. Depois, Juventude seria uma espécie de Oito e Meio. Agora é a vez de A Mão de Deus: é seu Amarcord. Se todos esses filmes aproximam-se pelos temas que tratam, seus visuais distanciam-nos. Definitivamente, Sorrentino não é Fellini.

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Enquanto o mestre aposta na imersão ao nostálgico e ao grotesco para nos encaminhar a outro universo, o suposto aprendiz – talentoso, não negamos – prefere ampliações que resultam, não raro, em mergulhos ao vazio de sua sociedade. E também não negamos que Sorrentino busque a nostalgia; está sempre voltado às belezas que perdeu.

Em Fellini, o imobilismo produz o sonho e este é predominante a partir de Oito e Meio. Em Sorrentino é possível separar com mais facilidade o que pertence ou não ao fantástico. Em A Mão de Deus, seu passado vem à tona na personagem central, no garoto fã do time Napoli, de Maradona, que passa a manter pela arte – de olhos arregalados – nítido fascínio.

O próprio Sorrentino fará de sua versão jovem a ponte impossível com Fellini, na grande ironia – a resposta – aos que não deixam escapar, filme a filme, a relação entre cineastas. A certa altura, o jovem Fabietto (Filippo Scotti) acompanha o irmão ator em um teste para o próximo filme de Fellini. Após o irmão deixar a sala do diretor, resta o vão aberto; vemos Fabietto olhar para a sala enquanto ouvimos apenas a voz do realizador.

Da cena podemos tirar observações curiosas: Fellini é algo distante, não encarnado, feito mito inatingível à medida que pede para que seus assistentes colem em um mural fotos de inúmeras mulheres que poderão servir ao harém de sua próxima produção. Ao garoto virgem aquilo faz algum sentido, tem efeito: cineastas são colecionadores de imagens, de molduras e belezas que se somam, não necessariamente de pessoas.

O mural é a formação do imaginário, casamento do possível com o impossível, das intenções com as musas que o artista quer na tela. O que vem depois leva Fellini e Sorrentino para outros caminhos e poucas semelhanças: ambos adoram mulheres belas, corpulentas, e adoram reproduzir os tipos italianos com os quais conviveram, naturalmente engraçados.

O jovem Fellini é o vitelloni, o boa-vida, sem vergonha de se assumir mandrião, tampouco de deixar às claras seu jeito moleque. Pode ser visto no maravilhoso Os Boas-Vidas. Sorrentino é o introspectivo, não o tolo, alguém que, na juventude, não troca o futebol por nada e, aos poucos, deixa as bandeiras do Napoli para ser cineasta, para crescer.

Como Fellini, precisa fazer um percurso que todo artista deverá fazer: escapar de sua própria realidade, mudar para outro local, buscar novo ângulo. Para sua cidade, depois, oferece um filme. Com a arte, decanta o passado e o molda à nostalgia. Em qualquer filme dito autobiográfico não podemos acreditar totalmente nos fatos. Prevalece sempre o olhar pessoal que deturpa o que se viveu e aponta ao que se crê ter vivido.

A “mão de Deus” não existe: é uma projeção apaixonada do torcedor ao mito Maradona. A verdadeira “mão de Deus”, descobrirá a personagem, recai na possibilidade de criar mundos que o cinema confere. É a do artista, com suas abstrações, e que ajudam a compreender a realidade. É como o mural com as fotos de belas mulheres, tijolos de um castelo.

A Mão de Deus é um filme sobre ser jovem. Amarcord é sobre um tempo perdido. Sorrentino ocupa o corpo de um garoto, talvez tenha vivido o passado como mostra. Fellini está em cada centímetro de Amarcord, não apenas no adolescente e em seus amigos que brincam ao redor das mulheres da cidade e fazem traquinagens com os mais velhos. De Sorrentino temos espaços e personagens bem demarcados, aparentemente profundos; de Fellini, o espírito que detona a experiência comum, o que chamamos de felliniano.

Ao colocar os realizadores italianos lado a lado, não pretendo elevar um e rebaixar outro. Apenas saliento diferenças, além da miopia de certa crítica especializada. Sorrentino tem seu próprio cinema. Vê-lo sempre na rabeira de Fellini é se deixar levar por temas, é escantear o que o cinema proporciona de maior. A Mão de Deus não é Amarcord.

(È stata la mano di Dio, Paolo Sorrentino, 2021)
(Idem, Federico Fellini, 1974)

Notas:
A Mão de Deus: ★★★☆☆
Amarcord: ★★★★★⤴

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Foto do cabeçalho: A Mão de Deus

Veja também:
Os encontros de Anselmo Duarte com Federico Fellini

2 comentários sobre “Sorrentino não é Fellini

  1. A crítica de cinema, assim como a literária, está cheia de vícios. A mais danosa é ficar comparando de qualquer jeito autores ou diretores, numa espécie de arremedo dos estudos comparatistas. Não há um só filme novo de qualidade que não acabe sendo comparado a outro. Não há uma só resenha literária que, diante de um livro novo, não o compare a um conhecido. Eu acredito que tais comparações sejam subterfúgios para quem não sabe partir do zero, ou, no fundo, não entendeu o filme ou o livro. Gosto bastante de Sorrentino, eu também acho que o pessoal pega no pé dele, talvez por ele ser dos maiores de nosso tempo. Parabéns pelo texto!

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