O Último Duelo, de Ridley Scott

Há mais de dez anos Ridley Scott não entregava um bom filme. Desde O Gângster, para ser mais exato. A mudança de curso vem com o que parece ser um épico e não é, com o que parece ser um filme de macho e não é. Em O Último Duelo, a mulher tem peso maior na terceira e última parte. Vemos primeiro a “verdade” pelo ponto de vista dos homens.

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O filme não deixa dúvidas de que é dela a versão definitiva. A mulher é vítima de estupro. É na sua história que devemos crer, o que nos leva a questionar o espaço dado às versões mentirosas, de homens broncos e estúpidos da França do século 14. A resposta ilumina o que há de maior no filme de Scott: para entender como a mulher era vista é preciso invadir as questões narrativas.

É preciso ver pelo homem para encontrar o espaço da mulher. O olhar ainda persiste, volta-se a nós, ao nosso tempo. A herança narrativa é assustadora, explicita o roteiro de Nicole Holofcener, Ben Affleck e Matt Damon, do livro de Eric Jager: a versão da mulher será sempre abafada pela desconfiança, mesmo quando dado o direito de reivindicar.

O filme é esculpido com tons escuros, lama, cavalos bravos e choques entre armaduras e punhais. Há um corpo arrastado por um cavalo e pendurado para ser observado pela turba atrás de sangue, momentos de crueldade sem igual no cinema atual e de grande produção. Há um rei jovem e abobalhado, que nada sabe sobre governar e ri do duelo.

E há, na arena, o gesto de ignorância que busca vocalizar Deus. Não importa quem ganha ou perde, quem tem o melhor cavalo ou a melhor técnica de luta. O resultado será sempre atribuído ao Divino, para além da terra, do cadáver arrastado. E o guerreiro vencedor, nesse último duelo em solo francês, tem para si a “verdade”. Deus não mente.

Deus, diz Sir Jean de Carrouges (Matt Damon), não permitirá a morte da mulher, condenada com o marido em caso de derrota. Ela, Marguerite (Jodie Comer), tem a perna presa a uma corrente enquanto assiste ao embate entre o companheiro e o abusador, luta que deve chegar à morte, representação da inocuidade das ações quando resolvidas pelos homens e pela Igreja, falso confronto de narrativas materializado em sangue.

Nesse império de homens, a descarga Divina é a desculpa para que eles tentem fazer valer suas versões e sustentar honras quando a mulher decide ter voz própria. Pois Jean, antes de levar o caso de estupro aos tribunais, ainda desconfia dela; pois o abusador, Jacques Le Gris (Adam Driver), ainda tenta se esconder nos limites do homem culto e letrado, do conquistador que “nenhuma” mulher pode negar.

O estupro faz parte dessa cultura, ainda que o anúncio do crime leve alguns a demonstrar surpresa. A gravidez de Marguerite, mais tarde, será posta no tribunal, usada como arma contra sua versão e ligada ao estupro, como se ela tivesse desejado o abusador e, por isso, engravidado. Como se a gravidez só pudesse se dar pelo desejo – o que dependeria dela, nunca do homem ao lado, o marido robótico ou o violento Le Gris.

As versões do marido e do estuprador coincidem e se diferenciam em pontos curiosos. Cada um dirá que salvou a vida do outro em uma batalha. Cada um reforçará a arrogância ou o silêncio do outro, a sede de poder que envolve o avanço sobre o dote de Marguerite, sobre as terras de seu pai, sobre produtos que podem vender ou trocar.

A versão dela é sobre como todos esses conflitos equiparam o machismo a uma sociedade de aparências, o poder à vaidade. Ao resolver falar, Marguerite diz-nos como a verdade e a razão só podem sobreviver fora da ótica tóxica daqueles homens, daquele tempo. Não seria exagero dizer que muito continua vivo, que inúmeras Marguerites seguem silenciadas, amarradas a correntes enquanto espectadoras da brutalidade de seus companheiros e violadores.

(The Last Duel, Ridley Scott, 2021)

Nota: ★★★☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Annette, de Leos Carax

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