Spartacus, por Antonio Moniz Vianna

A reapresentação de Spartacus, além de constituir o melhor espetáculo da semana, serve para que sejam feitas (ou repetidas) algumas observações de ordem crítica, as seguintes:

(1) Entre os diretores abruptamente deslocados para a área do superespetáculo – referimo-nos àqueles merecedores de respeito – foi Stanley Kubrick o que melhor resistiu às limitações ou às concessões naturais do volumoso e polimorfo gênero. Spartacus, sem igualar em criatividade e talento a linha de outros filmes kubrickianos (Paths of Glory/ Glória Feita de Sangue – antes; e Dr. Strangelove/ Dr. Fantástico – depois), é uma realização que se impõe por uma dignidade narrativa e visual capaz de substituir perfeitamente a compulsória ausência de estilo pessoal. Nesse ponto, Kubrick leva vantagem sobre diretores que rivalizam com ele em outros campos – como Anthony Mann (menor a vantagem sobre El Cid do que sobre o já indefensável A Queda do Império Romano); Nicholas Ray (não obstante uma certa dignidade plástica de King of Kings/ O Rei dos Reis, mal compensando os desvios do roteiro de Yordan, praticamente um Evangelho novo, o Evangelho de Filipe, como um crítico o nomeou); Joseph L. Mankiewicz, cuja filmografia seria mais equilibrada se fosse três horas e tanto (Cleópatra) menos longa. À margem dessa relação, o caso de Richard Fleischer: já não prometia tanto (anos depois de The Narrow Margin/ Rumo ao Inferno e Violent Saturday/ Um Sábado Violento) ao assumir a direção de The Vikings, e obteve, no entanto, com esse superespetáculo realizado fora do regime da superprodução, um resultado surpreendentemente interessante.

(2) O filme de Kubrick conquistou cinco prêmios da Academia – o que não teria peso na argumentação (pois Cleópatra ganhou maior número de Oscars), se alguns desses prêmios não dessem a medida do cuidado e do bom gosto dispensados à produção de Spartacus – os referentes à fotografia (Russell Metty), cenografia e vestuário em cores*. Outros sinais, não reconhecidos pela Academia, salientam ou generalizam essa qualidade, entre eles os títulos de Saul Bass, esse extraordinário artista que várias vezes (não é o caso de Spartacus, mas é o de Joan of Arc, para citar um exemplo) suplanta de muito os filmes que apresenta. O Oscar atribuído a Peter Ustinov recompensou um ator a quem se deve uma série de performances admiráveis pela riqueza de composição até os limites máximos do pitoresco. No mesmo plano de Ustinov, em Spartacus, ou pouco abaixo do ator inglês, outros intérpretes conferem equilíbrio e expressividade ao elenco, especialmente Charles Laughton, Jean Simmons, o negro (o fordiano) Woody Strode, Harold J. Stone, Charles McGraw, John Ireland, Nina Foch, Herbert Lom, até Laurence Olivier, que estiliza o personagem (Crassus) até o esnobismo. E Kirk Douglas, produtor-executivo e Spartacus, tem um de seus melhores trabalhos como o escravo trácio que chefia a revolta contra Roma e, depois de ameaçar seriamente o império com seu exército de gladiadores, acaba pregado numa das centenas de cruzes levantadas na estrada entre Cápua e Roma.

(3) Spartacus vale pela dosagem correta dos elementos normais do superespetáculo – a História se funde na narrativa; o drama vai do close-up ao long-shot, ou melhor, é pessoal e coletivo sem que sejam esgarçadas as situações de permeio; a carga de anacronismo é reduzida pela vigilância do diretor & assessores; e Kubrick, se enrijece o aspecto plástico do filme, não permite que esse rigor se transfira ao plano do sentimento, disto resultando uma inesperada emoção. Não sendo um filme extraordinário, Spartacus nem por isso deixa de constituir uma exceção em seu gênero. A convocação de Stanley Kubrick pelo superespetáculo teve como resultado uma obra mais expressiva e mais interessante do que se admitia – e superior também à seguinte realização de Kubrick, Lolita, na qual, ao contrário, se depositavam tantas esperanças.

Correio da Manhã (20 de janeiro de 1966)
*Moniz erra o número de estatuetas: Spartacus ganhou quatro Oscars, o mesmo número de Cleópatra.

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Veja também:
Stanley Kubrick, por Luiz Geraldo de Miranda Leão

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