Stanley Kubrick, por Luiz Geraldo de Miranda Leão

A notícia veio como o impacto de uma pedra atirada contra a vidraça: 7 de março de 1999. Faleceu de morte súbita (provavelmente síncope cardíaca) em Heretsford, Inglaterra, o diretor cinematográfico Stanley Kubrick, um dos grandes mestres de quantos se revelaram por trás das câmeras e um dos mais importantes cineastas do século XX. O pranteado clínico Waldemar Berardinelli dizia não haver morte súbita. Morremos, sim, todo dia um pouco. Algo insidioso – o desgaste contínuo das células – nos vai consumindo de forma imperceptível até derrubar-nos de vez… Há sempre uma justificativa para a morte, fruto de nossa não-aceitação dessa fatalidade, a única banalidade renovável, como dizia Mário da Silva Brito: ocorre todo dia e sempre surpreende. A estafa e o estresse provocados pela longa preparação de Eyes Wide Shut, último filme de Kubrick, devem ter contribuído para o indesejável desfecho.

Stanley Kubrick se projetou como diretor de primeira linha devido a filmes como O Grande Golpe, Glória Feita de Sangue, Spartacus e Lolita, mas só se tornou conhecido dos amantes de cinema de toda parte após a exibição de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, filme ao qual ninguém pode ficar indiferente: revolução no cinema como forma de cultura, teoria do conhecimento. “Obra genial”, diria depois Woody Allen, admirador incondicional do filme.

Realmente, como escreveu José Lino Grunewald, “tudo em 2001 é precisão e cuidado nos menores detalhes, desde os aparatos, a arquitetura dos sets e as vestimentas dos seres em situação extraterrena – tecnicamente nenhum filme o iguala em função do espetáculo estético”. 

2001, esclareça-se, leva a assinatura de um digno representante da elite intelectual do leste americano, conforme palavras de Román Gubern, pois o filme iria dar um novo passo ao debruçar-se sobre o problema do futuro da humanidade através da sua peça magistral de ficção científica. Estamos sós no universo? Ou apenas habitamos um planeta insignificante a girar em torno de um sol de quinta grandeza, enquanto noutras galáxias distantes anos-luz há milhões de mundos habitados por inteligências superiores ou inferiores, mas com as quais jamais entraremos em contato, e nossa angústia continuará a mesma, quer estejamos sós ou cercados por mundos habitados? Estamos presos neste universo infinito ou haverá outros universos? Onde estará Deus?

“Kubrick provê o espetáculo com o equivalente mais próximo da experiência psicodélica”, afirmaria o crítico da Time à época de suas primeiras exibições. Não admira, pois, o impacto causado nas platéias do mundo pelo 9º filme de SK. “Diga-me, por favor, quem é Kubrick” foi o título de matéria da revista Look sobre o realizador de Paths of Glory e de 2001. Apesar de tantos livros sobre SK e seus filmes e da alentada biografia de Vincent Lobrutto, poucos ajudam a explicar a gênese de sua genialidade.

Aluno medíocre, o pequeno Stan faltava geralmente às aulas no curso primário; no secundário, continuava medíocre (embora com QI muito acima da média), nenhuma matéria lhe interessava. O pai, médico de certo renome, homem inteligente, preocupa-se com o fraco desempenho do filho na escola. Diz-lhe: “Stan, para triunfar na vida é preciso primeiro saber. Para saber é preciso ler, reler, buscar as fontes de conhecimento”. Procura daí em diante incutir-lhe o hábito da leitura, “para você não ficar para trás”. Ensina-lhe o xadrez e aproveita o ensejo da vitória de Capablanca, ex-campeão mundial, na Olimpíada de Buenos Aires, 1939, para mostrar ao garoto como o xadrez representa ordem, lógica, perseverança e autodisciplina. O menino se motiva porque o jogo abarcava o seu fascínio pela guerra e as ações militares. Começa a estudar Napoleão, leu centenas de livros sobre o grande militar. 

O Dr. Kubrick decide mandar o filho para uma temporada na Califórnia junto aos tios Martin e Marion, de outubro de 1940 à primavera de 1941. No retorno, o pai lhe presenteia com uma Graflex, câmera de alta velocidade, com lente singular reflexa, a primeira a ser usada por jornalistas, portátil, com obturador de plano focal, podendo congelar a ação de movimento rápido. Essa Graflex, como se vê, não era um brinquedo de criança e, sim, um convite para o operador entrar no mundo das imagens e reproduzi-las bem. O menino se entusiasmou, pois fotografar se tornara um hobby bem comum à época. Todos queriam bater retratos de alguém, fotografar as charretes do Central Park, o Rio Hudson, as pontes ligando Manhattan ao continente. O pai lhe ensina a manejar bem a máquina, compra-lhe rolos de filmes e com o interesse despertado lhe dá depois um minilaboratório e material químico e papel especial para revelação. O Dr. Kubrick insiste na leitura, põe a biblioteca à disposição do adolescente. O hábito de ler e perscrutar as coisas vai acompanhar o jovem Kubrick por toda a vida.

SK começa a trabalhar com o veterano fotojornalista Arthur Fellig e aprender todos os segredos das câmeras fotográficas – emulsão, exposição, granulação, produtos químicos etc. Tornou-se um fotógrafo amador de primeira e começa a frequentar as aulas da Art Students League e estudar pintura com a professora Ann Goldthwaite. Tornou-se também membro do Photo Club da Taft High School e depois percussionista da mesma escola. Quando se concentrava, tocava muito bem, mas duma feita chegou com uma câmera de 35mm em volta do pescoço, algo incomum naqueles tempos. SK estava longe; a fotografia era a sua paixão consumidora. As sementes da arte começavam a crescer dentro do jovem Kubrick…

Enquanto isso ia passando de ano até conseguir graduar-se, pois outros interesses havia lá fora e não no colégio. Aulas monótonas, livros chatos, matérias das quais jamais precisará na vida prática, dados históricos irrelevantes, deveres de casa quase sem sentido… Estudava xadrez e foi ficando cada vez mais forte. Chegou depois a ter força de mestre estadual e a ganhar dinheiro com disputas rápidas no Central Park. Faltava às aulas insossas, mas frequentava assiduamente os cinemas e fazia anotações essenciais sobre cada filme. Adquiriu alguns livros sobre a sétima arte, estudava-os com interesse.

De fotografia já sabia tudo, daí o motivo pelo qual, já de posse de uma câmera profissional, foi procurar a revista Look para empregar-se. Em lá chegando, ouviu do gerente a indagação: “E você sabe fotografar?” “Sei e bem”, respondeu. “Estas fotos são suas?”, indagou o gerente quando ele lhe mostrou algumas delas e estudos em p&b. “Foi você mesmo quem fez estas fotos?” “Foi, quem poderia ter sido?” O homem olhou-o, pensou e disse: “Está empregado”. E lá ficou SK uns quatro anos, dos 17 aos 21… Fez fotos antológicas como O Pugilista (1949), mostrando Walter Cartier na tensão da espera do início da luta e uma outra captando o próprio combate entre dois boxeurs. Sua foto do dia da morte de Roosevelt, mostrando a tristeza estampada no rosto de um jornaleiro, teve grande repercussão. Duma feita a Look lhe deu a capa da revista para a foto de um garoto tomando uma ducha em verão senegalesco (5 ago 1947). Esta revista chegou às mãos deste redator naquele mesmo mês, adquirida pelo Dr. Miranda Leão no velho Edésio da Rua Guilherme Rocha. O nome do fotógrafo aparecia na capa. Nunca conseguimos esquecer o nome Stanley Kubrick.

Habitué de filmes, SK via e revia tudo quanto era exibido nos circuitos da Broadway. Duma feita, disse numa entrevista: “Uma das coisas que mais me deram confiança para tentar fazer um filme foi ver todos estes maus filmes. Porque ficava ali sentado e pensava: bem, ainda não sei nada de filmes mas sei que consigo fazer algo melhor que aquilo”. Conhecemos hoje as duas forças motivadoras da ida de SK para o cinema: seu amor pelas imagens em movimento e pelo seu trabalho como profissional de imagens paradas. Faltava a gota d’água para levá-lo até lá. E lá vem o acaso favorável: sua amizade com Alexander Singer (1932), bom diretor de dramas para a TV e depois de filmes de ficção da categoria de Rajadas da Paixão (A Cold Wind in August, 1961) e Cega de Amor (Psyche 59, 1964). Singer tinha formação mais cinematográfica e menos fotográfica, exatamente o contrário de SK. O encontro dos dois foi frutífero para ambos.

Para concluir esta minibiofilmografia, uma informação pouco conhecida: Kubrick fez curso de pilotagem de 150 horas e ganhou o seu brevê pela Federal Aviation Administration em 15 ago 47, aos 19 anos. Era um bom piloto até ocorrer um acaso desfavorável: uma pane imprevista derrubou o monomotor. Kubrick escapou ileso (mas viu a morte de perto) e desistiu desse hobby. Atribui-se a essa quase tragédia o seu medo de avião; daí em diante sua preferência é por trens e navios. 

Os filmes de Kubrick são todos conhecidos dos cinéfilos e admiradores: Medo e Desejo (Fear and Desire, 1953) (retirado pelo diretor por considerá-lo um filme amadorístico), A Morte Passou por Perto (Killer’s Kiss, 1955), O Grande Golpe (The Killing, 1956), Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957), Spartacus (1960), Lolita (1962), Dr. Fantástico (Dr. Strangelove, 1964), 2001, A Space Odyssey (1968), Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971), Barry Lyndon (1975), O Iluminado (The Shining, 1980), Nascido para Matar (Full Metal Jacket, 1987) e De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999).

Pelo conjunto de sua obra, SK ganhou troféus importantes na França, Itália, Alemanha, Inglaterra, Suécia, Espanha, EUA, prêmios da Associação de Críticos de Nova Iorque, o Griffith Award for Lifetime Achievement (transcrevem-se noutra página trechos do discurso dele naquela ocasião), o Prêmio Luchino Visconti, recebido em 1998 pela sua contribuição ao cinema durante a cerimônia de entrega dos Prêmios David Donatello e o Oscar pelos efeitos especiais em 2001, SK nunca fez jus a um Oscar como diretor, se bem merecesse vários, a nosso ver. Como bem disse um crítico, SK jamais estendeu tapete para ninguém nem se curvou a exigências descabidas de produtores incompetentes ou desonestos. Por isso, tal como o rebelde Orson Welles, jamais ganhou um Oscar. E daí?

Por tudo isso, talvez não esteja adequado o título desta matéria redigida em homenagem ao excepcional cineasta. A rigor, não estamos há 5 anos sem Kubrick – pelo menos 12 dos seus longas-metragens, de A Morte Passou por Perto a De Olhos Bem Fechados, estão aí em DVD ou VHS. Temos todos e não nos cansamos de vê-los e revê-los e estudá-los. Só lamentamos não dispormos dos curtas e médias-metragens e desse experimento amadorístico (?) Fear and Desire por ele retirado de circulação.

Estas as reflexões julgadas relevantes para o devido registro de uma sentida ausência.

Luiz Geraldo de Miranda Leão é conhecido como LG; o texto acima – “5 anos sem Stanley Kubrick” – está no livro Críticas de Luiz Geraldo de Miranda Leão (Imprensa Oficial; organização de Aurora Miranda Leão; pgs. 264-272). O livro pode ser comprado ou lido gratuitamente, na íntegra, no site da Imprensa Oficial.

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