Os faroestes de Budd Boetticher com Randolph Scott

Ao herói irretocável, acima de qualquer suspeita, há a paisagem seca, árida, em tom pastel, preenchida pelas rochas ao fundo – das quais o homem brota para depois se ver enterrado, no último filme de uma frutífera parceria entre cineasta e ator, Cavalgada Trágica. Não combinaria com a forma mítica se não terminasse rumo ao incerto, parte da natureza.

O homem é sempre o mesmo: Randolph Scott. As tramas às quais é lançado, em narrativas ágeis e inteligentes que dão a impressão de uma história há muito iniciada, guardam semelhanças: o terreno é o faroeste, com caubóis, matadores de aluguel, cidades dominadas por famílias e bandos, guerra civil, mulheres fortes e índios coadjuvantes.

O diretor, Budd Boetticher, a partir de roteiros concisos e direção enxuta, sem malabarismo e pouca psicologia, fez um ciclo invejável de faroestes clássicos com Scott. Os sete filmes dessa união ficaram conhecidos como “ciclo Ranown”, em referência à produtora de Randolph Scott e do produtor Harry Joe Brown, responsável por cinco longas em questão, exceto Sete Homens Sem Destino e Um Homem de Coragem.

O ator nem precisaria de nomes diferentes para cada uma de suas personagens. Elas são sempre as mesmas, a nos confundir sessão após sessão, nos tiros curtos que cada uma representa. A lenda – ou o mito – pela repetição, pela fórmula conhecida, pela aventura que carrega a imposição da lei e da ordem contra a selvageria e a desordem.

Ainda que curtas e um pouco repetitivas, essas histórias davam a Boetticher a oportunidade de explorar o que essa terra mitológica tinha de mais forte. A começar pelo herói, é provável que nunca tenha havido alguém como Scott. Nem John Wayne, o maior entre as lendas do gênero, conseguiu impor uma figura tão estreita – e contínua – nesse período clássico já um pouco diluído entre os aspectos modernos da época, nos anos 1950.

Impossível imaginar Scott sob as formas – ou agarrado à fúria interior – do Ethan Edwards de Rastros de Ódio, obra-prima de Ford que explora algo obscuro nesse reino de lendas e frases de efeito. Boetticher não se deixa seduzir pela zona cinzenta de Edwards.

Os heróis de Boetticher com Scott, mesmo na mais inesperada dessas histórias, Entardecer Sangrento, contêm a integridade e o cavalheirismo que não os separam de um Shane, um Will Kane, um Ringo Kid. Estabelecia-se pelo mínimo, pela maneira de se portar, de se erguer e dizer o que precisava ser dito, e nem sua bebedeira ao fim de Entardecer impedir-nos-ia de ver nele o pistoleiro imbuído de um código de honra.

Scott segurava-se inclusive em suas quedas. Velho homem nem tão velho assim, capaz ainda de malabarismos, de travar apostas por diversão, comprar doces para uma criança e caminhar por estradas de terra sem rumo, como vemos no espetacular O Resgate do Bandoleiro. Capaz de comprar a briga de um rapaz mexicano, com nenhuma vantagem aparente a ganhar, em Fibra de Herói, de não cobrar a recompensa após salvar uma mulher raptada pelos comanches em Cavalgada Trágica e, sobretudo, de exprimir desejo com gigante discrição em Sete Homens Sem Destino, o cume dessa incrível parceria.

Em ensaio genial, o crítico André Bazin cita a cena em que Scott, em Sete Homens, lava seu cavalo enquanto a mulher do companheiro de viagem toma banho no lago, provocando o movimento da água nos bambus. “É difícil imaginar a um só tempo mais abstração e mais transferência no erotismo. Penso também na crina branca do cavalo do xerife e em seu grande olho amarelo. Saber usar tais detalhes é seguramente mais importante no western do que saber executar uma batalha com cem índios.”

A tensão entre as personagens estende-se à presença de outros homens, outros dois, entre eles a figura endiabrada de Lee Marvin. Scott interpreta o xerife que busca vingança e quer matar os sete homens que participaram de um assalto, no qual sua mulher terminou morta. Marvin e um comparsa querem o ouro roubado pelos sete homens.

A exemplo de outros filmes da parceria entre Boetticher e Scott, os que parecem companheiros podem migrar de lado – e quase sempre migram. O mesmo se dá em O Homem que Luta Só e Cavalgada Trágica, nos quais alguns pistoleiros querem se aproveitar da recompensa pelo bandido e pela mulher que o herói recuperou.

Essa camaradagem borrada revela muito do que se nega no próprio Scott. Dessa dialética entre o homem idealizado e as figuras pequenas que cruzam seu caminho, seres torpes que só compreendem o tamanho de suas tragédias nos instantes que precedem suas mortes, nasce o faroeste que guarda as linhas essenciais do gênero sem renunciar às suas subversões.

Ainda assim, Boetticher permite que vejamos com clareza essas fronteiras. O pistoleiro e sua ordem resistem à marginalidade barata pelo caminho e preservam a integridade clássica que almeja o autor. Nesse sentido, o maior desafio desse ciclo de filmes é Entardecer Sangrento, não sobre o dinheiro, a recompensa, o mundo das estradas e dos índios como força da natureza, das diligências, mas sobre uma cidade e um único dia em que tudo se resolve.

Scott interpreta um pistoleiro que se recusa a aceitar a traição da mulher, uma suicida. Ele vai a uma pequena cidade para se vingar do suposto responsável pela morte dela. Esse dia de decisão, da manhã ao entardecer, é também o dia do casamento do algoz, o homem mais poderoso daquele local tipicamente americano, perdido no mapa.

É um raro faroeste no qual o herói não consegue vingança e o vilão sai pela porta da frente. Desconsolado, no balcão do bar, o homem de Scott assiste à despedida do criminoso sem poder fazer nada. Compreendemos assim o quanto Boetticher estava disposto a arriscar, a fazer do gênero mítico o gênero humano, de derrotas e figuras baratas.

Mesmo entre tantas diferenças, seguimos com as similaridades. Espanta, história após história, a capacidade do autor em nos surpreender. Temos o mesmo Scott, os mesmos lances, as tentativas de enforcamento e os duelos obrigatórios aos filmes do gênero. Sentimo-nos satisfeitos com essas repetições sob a assinatura de um mestre.

(7 Men from Now, Budd Boetticher, 1956)
(The Tall T, Budd Boetticher, 1957)
(Decision at Sundown, Budd Boetticher, 1957)
(Buchanan Rides Alone, Budd Boetticher, 1958)
(Westbound, Budd Boetticher, 1958)
(Ride Lonesome, Budd Boetticher, 1959)
(Comanche Station, Budd Boetticher, 1960)

Sete Homens Sem Destino: ★★★★★
O Resgate do Bandoleiro: ★★★★☆
Entardecer Sangrento: ★★★★☆
Fibra de Heróis: ★★★☆☆
Um Homem de Coragem: ★★★☆☆
O Homem que Luta Só: ★★★★☆
Cavalgada Trágica: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

ACOMPANHE NOSSOS CANAIS: Facebook e Telegram

Veja também:
Do pior ao melhor: os faroestes de Budd Boetticher com Randolph Scott

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s