Marighella, de Wagner Moura

O grito é parte inseparável da experiência. Também o barulho, os solavancos da câmera, a aparente bagunça e alguns ambientes escuros que reproduzem a ação de guerrilheiros contra militares. Compreendemos as escolhas do diretor Wagner Moura. Marighella nasce dessa vontade de subir o tom, o mais alto possível – pelo Brasil de antes, para o Brasil de hoje.

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Resulta agitado, explosivo, feito por rostos assustados de ponta a ponta e curiosamente equilibrado pela face mais expressiva entre todas que saltam à tela, a de Seu Jorge, a de Carlos Marighella. Um líder negro que não se intitula líder, que exalta a força dos jovens à contramão do conformismo dos mais velhos, que quer fazer uma revolução que siga para o campo e cujos olhos, embebidos em sangue, comunica-nos o essencial.

Pena que as intenções de Moura terminem por atrapalhar: seu filme grita demais, chacoalha demais, corre demais – a ponto de perdermos um pouco do homem Marighella, a ponto de tentarmos tocá-lo, em vão, enquanto Seu Jorge solta a voz para narrar, não para dizer. Soa falso em vários momentos – não necessariamente messiânico, como dizem alguns.

Mesmo com tanto barulho, ainda fica um pouco de um homem que luta para não expressar – ou gritar – sua dor. Em entrevista, diz que não tem tempo de ter medo. Ao perceber que a morte aproxima-se, prefere sua solução à dos perseguidores. Não suportaria se rebaixar à tortura imposta pelos abutres e carrascos da ditadura.

Carlos Marighella é pai. Moura faz da ligação de sangue a ponte entre início e fim, entre a criança que não sabe nadar e o jovem consciente de suas braçadas à parca luz do crepúsculo. A vida do filho é dada pelo nado, representação da autonomia do menino que se ergue contra o professor que, em dada altura, chama o golpe de “revolução”.

Marighella planta outras sementes. A luta armada não termina com sua morte. Ao seu lado estão guerrilheiros dispostos a matar e morrer. O título dá-nos o homem e o filme entrega um pouco mais: a época, os tanques e caçadores de terno, os norte-americanos e seus mandos e desmandos, o coletivo que canta com fúria – e grita – o hino nacional. Seus membros mesclam o choro à revolta em cena demasiada artificial, no pós-créditos.

A abertura é construída em longo plano-sequência, momento em que o protagonista e seu grupo roubam armas em um trem em movimento. Há outras várias passagens com planos longos. Moura tudo preserva, como se a “gordura” fosse a chave para penetrarmos esse tempo de excessos, de pessoas que parecem viver sempre seus últimos segundos.

Ao fazer de sua obra uma sucessão interminável de trombadas e dor, Moura lança-nos à exaustão. Cansamo-nos, com a impressão de que cada passo do roteiro – entre ataques, baixas, planos e roubos – repete o anterior. Moura afirma ser fã de A Batalha de Argel. Seu filme está mais próximo de O Grupo Baader Meinhof e seus jovens que choram no banco de trás de carros apertados, que não escondem fraquejo, que se suicidam.

O filme de Pontecorvo explica a ação revolucionária pelo olhar ao povo, às pessoas simples, não-atores, e é notável em sua capacidade de tomar distância, de colocar sua paixão em pequenos gestos, e de ainda assim nos dar a pele e o corpo por inteiro de homens, mulheres e crianças em meio à luta armada. O de Moura prefere a paixão direta, às vezes a ação individual, e quase sempre resta a ideia de um pequeno grupo apartado da realidade ou distante do que deseja parte significativa de um povo ávido por “ordem” e tanques nas ruas.

Marighella é um filme necessário, não um grande filme. Confunde menos que o esperado, ainda que haja em seus guerrilheiros – mais que na personagem central – doses do combustível necessário ao cinema político: contradição.

Confusão alguma existe nos algozes, por outro lado. Não me entendam mal, pois não há qualquer intenção de defender ou suavizar carrascos. Longe disso. Mas o perseguidor de Bruno Gagliasso não impõe em momento algum o que homens – sim, homens – podem produzir quando aprendem a odiar a liberdade. Daí a importância da contradição e do pavor que ela produz, sem a maldade estéril dessa personagem pobre.

(Idem, Wagner Moura, 2019)

Nota: ★★☆☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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