Renoir: “Nana foi o primeiro filme no qual descobri que não copiamos a natureza”

O depoimento e o texto abaixo são do cineasta francês Jean Renoir, nos quais fala sobre um de seus melhores filmes, Nana, de 1926.

Nana foi o primeiro filme no qual descobri que não copiamos a natureza, mas que devemos a reconstituir, que todo filme, que todo trabalho com pretensão artística, deve ser uma criação, uma criação boa ou ruim. Descobri enfim que valeria mais inventar, criar alguma coisa de ruim do que se contentar em copiar a natureza, mesmo que o façamos de maneira brilhante.

Entrevista a Jacques Rivette e François Truffaut na revista Cahiers du Cinéma e reproduzida no catálogo da mostra A Vida lá Fora: O Cinema de Jean Renoir (CCBB; pgs. 319 e 320; tradução de Ciro Lubliner).

Foi um tremendo acaso que me levou, em 1924, a um cinema em que era exibido um filme de Eric von Stroheim. Esse filme, Esposas Ingênuas (Foolish Wives, 1922), me impressionou. Devo tê-lo visto pelo menos dez vezes.

Relegando o que antes adorava, compreendi o quanto me equivocara até aquele momento. Deixando de acusar tolamente a suposta incompreensão do público, percebi a possibilidade de atingi-lo pela apresentação de temas autênticos, na tradição do realismo francês. Pus-me a olhar ao redor e, aturdido, descobri uma grande quantidade de elementos puramente franceses que podiam ser transpostos para a tela. Comecei a constatar que os gestos de uma lavadeira, uma mulher que se pinta diante de um espelho ou um vendedor de legumes e frutas em sua carroça possuíam muitas vezes um valor plástico incomparável. Refiz uma espécie de estudo do gesto francês, através dos quadros de meu pai e de outros pintores de sua geração. E depois, fortalecido por essas novas aquisições, realizei meu primeiro filme que vale a pena ser comentado, Nana (1926), baseado no romance de Emile Zola.

Revi esse filme há dois ou três anos. Testemunha uma grande sinceridade em sua inépcia. Quando se é jovem, quando se é combatido, criticado e vaiado, qualquer um adora se apoiar numa certa pretensão. Pode-se sentir isso em Nana. Seja como for, ainda amo esse filme. 

Uma das maiores alegrias de minha vida foi a que experimentei em Moscou, há três ou quatro anos, quando um camarada de lá me apresentou num congresso; os espectadores que ignoravam meu nome se puseram a aclamar meu velho Nana.

Mas Nana, que foi um dos primeiros filmes a manter uma exclusividade de várias semanas num cinema dos bulevares, que obteve bilheterias excepcionais para a época e preços de venda no exterior que gostaríamos de conseguir hoje, foi mesmo assim um desastre comercial. Empenhei tudo o que possuía, até o último níquel, mas conquistei o respeito através da força dos grandes produtores do momento e a convicção de que, enquanto eles predominassem no mercado, um independente nada poderia fazer.

Houve um outro elemento de êxito que eu negligenciara: o cinema, como todos os outros ofícios, é um “círculo”, e para que um “estranho” possa penetrar nesse círculo não é apenas uma questão de idéias e tendências, mas também de linguagem, hábitos, costumes, etc.

A história nos ensina que as grandes transformações entre os povos e os organismos provêm em geral de dentro para fora; meu erro fora o de não começar como um homem do interior.

Trecho do artigo “Meus anos de aprendizado”, publicado na revista Le Point, em dezembro de 1938, e reproduzido no livro Escritos Sobre Cinema: 1926–1971 (Editora Nova Fronteira; pgs. 45-47; tradução de A.B. Pinheiro de Lemos). Acima, a atriz Catherine Hessling, que interpreta Nana, em cena do filme; abaixo, a mesma atriz em foto para a divulgação da obra.

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