Duna, de David Lynch

No apresentação que antecede os depoimentos de David Lynch em Grandes Diretores do Cinema, o autor Laurent Tirard explica seu fascínio pelo cineasta americano: “a maneira como ele consegue mostrar o que se oculta sob a superfície das coisas, como os insetos na grama no início de Veludo Azul ou o corredor escuro de A Estrada Perdida”.

ACOMPANHE NOSSOS CANAIS: Facebook e Telegram

Dá para tirar do depoimento o essencial sobre Lynch: o cinema “sob a superfície das coisas”, do sonho, do que habita a parte mais profunda de nós. E ajuda a compreender por que Duna é justamente seu maior fracasso e um dos piores filmes já feitos por um grande diretor: na empreitada a partir do livro de Frank Herbert, tudo está na superfície.

É difícil definir o que vemos. Mais parece uma mistura de Guerra nas Estrelas com Satyricon de Fellini. Estão ali as linhas da aventura e o movimento do primeiro, o aspecto grotesco e libidinoso do segundo. Nem o que soa radical sobrevive à experiência ou se aproxima do que esperamos de Lynch: o grotesco é suavizado pela atmosfera infantil, pela aproximação à onda Guerra nas Estrelas, que ajudou a ceifar a Nova Hollywood.

Lynch, no contexto histórico, está mais próximo à geração seguinte, à do pós-Vietnã. É um realizador com total consciência da importância da autoria e, no cinema, do direito ao corte final. Lynch deixou-se seduzir pelo som da flauta do produtor Dino De Laurentiis, assistiu às belezas da vida do mecenas em viagem à Itália e, logo “adotado”, fez o filme que o dono do dinheiro desejava. Recebeu e cumpriu, nestes termos.

O fracasso de Duna – refletido em quase todos os seus quadros, seja na versão de duas horas e 17 minutos, seja na de quase três horas – é compreensível quando se entende as diferenças entre cineasta e produtor. “Fiz Duna em parte porque é sobre a busca da iluminação”, diz Lynch em Espaço para Sonhar, escrito em parceria com Kristine McKenna. “Dino não entendia abstrações, poemas, nada disso – ele queria ação.” Injusto, contudo, culpar apenas o empresário boa praça por trás de King Kong e Flash Gordon. O mais razoável a dizer é que o pai financeiro do monstrengo sobrepôs-se ao pai artístico.

No fim das contas, esse filme feito para os anos Reagan, para plateias sedentas por naves e heróis interestelares, precisava viver na mais pobre das superfícies. Não que não tivesse, na essência, o DNA de Lynch. O problema estava, claro, nas estruturas, no barro usado para criar a peça e, sabemos bem, na forma final que a estátua muda assumiu.

De cabelos avolumados, destreza com punhais, Kyle MacLachlan é o herói da história. Escolhido, ele sequer deveria ter nascido, diz a lenda: sua mãe, uma concubina, foi dada a um rei para gerar filhas mulheres. A inversão do sexo possibilitou a vitória de um grupo de rebeldes (sempre eles) contra as forças de um império assassino (de novo).

O herói precisa descobrir seu caminho, sua jornada. Tudo é jogado, confuso, truncado. Não há sequer apreço pela lógica da decupagem, pelo respeito à mínima organização que se espera do bom cineasta, e pelo respiro necessário para compreender as personagens em cena – para, ao menos, termos um resquício de emoção, de vida, de espírito.

Em Duna, Lynch teve de lidar com vermes gigantes, um gorducho (Kenneth McMillan) que flutua como um balão de hélio e respinga pus pela face, uma estrela da música (Sting) a servir de objeto sexual magricela e com tanga de borracha, uma diva italiana (Silvana Mangano) com o crânio parcialmente plastificado e um monstro preso a um aquário, oráculo que serve de espermatozoide para a expansão do universo.

E teve de lidar, sobretudo, com a grandeza – ou sua ideia. Forçar o nascimento de um épico, com Lynch, só poderia resultar no que resultou: um pastiche que empresta um pouco de tudo e nada consegue parir em ridículo espetáculo de dispêndio de recursos. Não há grandeza alguma. Ao contrário, reparamos mais nas sobrancelhas postiças e gigantes postas em Brad Dourif e Freddie Jones do que nas batalhas entre homens.

O diretor rendeu-se às regras da indústria. Aceitou, pela primeira e única vez, estar na superfície. Pagou o preço da própria anulação (momentânea) enquanto artista – o que explica o trauma que o filme da família De Laurentiis causou, anos a fio, em alguém chegado à meditação transcendental e cujos filmes brotam do buraco dos insetos e da natureza humana.

(Dune, David Lynch, 1984)

Nota: ☆☆☆☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Lynch, sobre História Real: “trata-se de meu filme mais experimental”

Um comentário sobre “Duna, de David Lynch

  1. Apesar das falhas desta versão cinematográfica incomodamente resumida da obra literária de Frank Herbert, eu gostei da versão do David Lynch. Mas também lamento o cancelamento da versão de Alejandro Jodorowsky de 1974. Essa obra nunca levada a frente prometia ser no mínimo interessante.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s