Brinquedo Proibido, por Antonio Moniz Vianna

Surpreendentemente excluído da seleção que representou o cinema francês no Festival de Cannes de 1952, onde só pôde ser exibido extra-oficialmente, Jeux Interdits obteve, em sinal de desagravo, um Grand Prix Independent. No mesmo ano, entretanto, René Clément, seu diretor, conquistou o prêmio máximo de Veneza, “por ter sabido elevar a singular pureza lírica e excepcional força expressiva a inocência infantil na tragédia e na desolação da guerra”.

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Com efeito, ninguém ousará negar a Clément essas qualidades, que lhe foram propiciadas pelo exemplar cenário extraído por Jean Aurenche e Pierre Bost do romance de François Boyer, mas que refletem também uma evolução artística tanto mais espantosa quando se tem consciência de que o diretor, não obstante os prêmios que ganhou em outros festivais, ainda não havia realizado sequer um filme de boa estatura. De La Bataille du Rail, documentário supervalorizado por muitos críticos, a Jeux Interdits, a evolução de Clément não se processou disciplinadamente, estacionou anos a fio, quando o diretor transitou pela versão de um desses inefáveis romances de Vicki Baum (Le Château de Verre), após ter invadido, mais ou menos desarmado, com Au Delf das Grilles, a órbita de Carné – cujos imitadores, sem exceção (vide o exemplo de Yves Allegret, com Dedée d’Anvers), não têm tido êxito. Na filmografia de Clément, portanto, Jeux Interdits é um salto – e uma inesperada manifestação de vitalidade no atual panorama do cinema francês.

O extraordinário interesse que o filme desperta é o resultado do rigor e da clareza com que se operou a versão para a tela de um tema original e fascinante: a descoberta dos rituais fúnebres por dois meninos, Paulette (Brigitte Fossey) e Michel (Georges Poujouly), que estão envolvidos, durante a guerra, por uma atmosfera de morte e violência. Ela, com cinco anos, assistira ao metralhamento dos pais pela Luftwaffe, que inspirava o horror e o pânico na estrada repleta do retirantes de Paris – mas o que a preocupa ao ser recolhida por Michel, o filho mais novo (11 anos) de uma família de camponeses, é o corpo sem vida de seu inseparável cachorrinho. Num velho e abandonado moinho, Paulette enterra o animal – e, depois, com a cumplicidade de Michel e entre padres-nossos e aves-amarias, enterra também uma toupeira, um pinto, um grilo e uma barata (esta “metralhada” com um lápis pelo menino, que imita a trajetória e o ruído de um avião nazista), construindo, assim, um pequeno cemitério. Como acentuou Van Jafa, em “A Noite”, “a obsessão gradativa e subconsciente pelo mórbido vai em crescendo se plantando na ternura tácita de dois meninos que se refugiam na confiança mútua de suas traquinagens”. As cruzes para as simbólicas sepulturas – os “brinquedos proibidos” do título – são roubadas do coche fúnebre e do cemitério da aldeia, porque Paulette não considera satisfatórias as que o companheiro faz desajeitadamente, e exige as mais bonitas, inclusive o brilhante crucifixo da igreja e a cruz do túmulo recente do irmão mais velho de Michel.

Os que conhecem o romance de Boyer asseguram que o autor não dispensou ao tema um tratamento literário superior. Como filme, todavia, Jeux Interdits alcança elevado nível, graças à inteligência com que o assunto foi explorado pela dupla Aurenche-Bost (responsáveis, nos últimos anos, pelas realizações mais expressivas do cinema francês, entre os quais Le Diable au Corps e Dieu a Besoin des Hommes) e por Clément. Um humor macabro, contíguo à força trágica do assunto, é desenvolvido com raro equilíbrio, nunca ferindo o ritmo essencialmente poético da narrativa. E à audácia do conteúdo corresponde uma exatidão formal que parecia inatingível tanto por Clément como por um cinema que tem procurado conquistar, numa pseudo-revolução, a balbúrdia. Graças também à conivente presença da menina Brigitte Fossey e à firme orientação dos outros intérpretes, Jeux Interdits é uma pequena obra-prima.

Correio da Manhã (10 de janeiro de 1954)

Veja também:
O Diabólico Vampiro de Düsseldorf, por Antonio Moniz Vianna

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