A Língua das Mariposas, de José Luis Cuerda

A leveza da maior parte do filme não nos prepara para seu encerramento brutal. O choque é dado pela alteração dos papéis: a família justa e bondosa ao centro da história é obrigada a ser o que desejam os fascistas na Espanha à beira da Guerra Civil. De um dia para outro, intitular-se republicano passa da honra à completa vergonha.

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De repente, nesses últimos minutos de A Língua das Mariposas, encontramos não a família que vimos até então – o pai republicano, honesto, a mãe desconfiada da política e da educação próximas aos filhos, o irmão chegado à música e o protagonista, a criança que não pode ver tudo e termina cega -, mas a que a conveniência obriga nascer.

O filme de José Luis Cuerda é uma crítica à família, também à religião e a todos que aceitaram a imposição do fascismo sob a desculpa da conservação dos valores. A educação – no professor justo e interpretado pelo grande Fernando Fernán Gómez – é reduzida a capricho, assusta os tacanhos com a liberdade de pensamento que acarreta.

O diretor mostra-nos como a parte mais inocente e frágil dessa sociedade – a criança – deu lugar ao comodismo dos outros, depois à violência de alguns. Como o pequeno Moncho (Manuel Lozano) (mas poderia ser outra criança) torna-se um repetidor dos pais – a segui-los no teatro macabro em praça pública – a despeito das verdades do professor.

Não estamos prontos para esse desfecho porque Moncho é uma criança. Somos, em algum sentido, retirados da posição de conforto que inclui palavras ternas, gestos bondosos, ingenuidade e despreparo para o mal – o que pode ser resumido pelo momento em que ele deixa molhar as calças na sala de aula, ou quando observa o sexo.

A infância convence-nos de que o pior reserva-se às bordas e, de súbito, a mesma – sem nunca entender a fúria da massa que grita “comunistas” e “ateus”, composta por pais, mães, irmãos, colegas de escola e gente simples da vila – toma pedras com as mãos para jogar no caminhão que leva os “inimigos da pátria” à morte certa.

O professor apresenta a Moncho e a outros meninos a natureza; mostra a todos como os insetos podem ser surpreendentes e como o universo é infinitamente maior do que imaginam os menos instruídos. Quando a criança explica para a mãe a origem das batatas da Espanha, ela reage com alguma dúvida, distante como está do professor. Ao ver os “inimigos”, no fim, ela é a primeira da família a erguer a voz aos “ateus”.

O desfecho não deve ser visto como traição ao espectador. Ele representa a transformação de um filme aparentemente linear, de episódios nostálgicos, que passa pela história de amor do irmão com a menina oriental, pela banda, pelo carnaval, pelas lavandeiras à beira do rio, pelas fugas do protagonista com o amigo da escola.

Em uma delas, os meninos descobrem um homem, uma mulher e um cão em local isolado. Antes, o mesmo homem falava, em conversa de bar, da figura feminina irresistível. A mulher em questão é livre, mas só sente prazer pelo companheiro quando seu cão está por perto. Apenas o animal permite-lhe sentir o desejo pela carne e a completa entrega. Ela é a meia-irmã que Concho nunca conheceu, e talvez seja quem explicite melhor o que muitos não têm coragem de assumir: a única companhia digna de emoção é a do cão, e o desejo pelo mesmo, com toda sua animalidade, é subversivo.

O animal anima a mulher e perturba o homem. O que o levará, a exemplo do professor, à morte. No caso do primeiro, com um galho atravessado na boca. Do segundo ficamos com o olhar penetrante, a certeza de que seus ensinamentos e palavras sobre liberdade não foram suficientes para livrar as crianças de pais convenientes e fascistas.

Um deles abre caminho para o tão citado encerramento. De roupa preta, na companhia de uma menina sem fala, pede que o professor aplique um “corretivo” em seu filho pequeno, da mesma sala que Concho. O “corretivo” significa bater no menino. Para que o professor cumpra o ato, presenteia-o com duas galinhas mortas, postas sobre sua mesa. O velho sábio percebe a tamanha dificuldade que é frear o autoritarismo e a violência.

(La lengua de las mariposas, José Luis Cuerda, 1999)

Nota: ★★★☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Os Olhos da Cidade São Meus, de Bigas Luna

2 comentários sobre “A Língua das Mariposas, de José Luis Cuerda

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