Os Olhos da Cidade São Meus, de Bigas Luna

O cinema retira os olhos do espectador. A simbologia é forte. É possível pensar nela de outra forma, nem tão direta: o cinema pede muito a quem se aventura na sala escura, que aceita ceder algumas horas para contemplar o fantástico ou o aterrorizante.

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Em Os Olhos da Cidade São Meus, essa arte deixa marcas profundas. Na sala de cinema, uma menina sente-se mal enquanto assiste à história de um assassino que retira os olhos de suas vítimas; algumas poltronas ao lado, um homem de meia idade identifica-se com a personagem da tela e resolve matar pessoas no interior dessa mesma sala.

A essa altura, Bigas Luna já expôs seu jogo de espelhos, suas obsessões (cinematográficas) e camadas: um novo filme nasce do interior de outro. Por tempo considerável, acompanhamos as reações e descobrimos mais sobre as pessoas que estão na sala escura, que assistem a um filme chamado A Mamãe, justamente sobre a manipulação materna.

Essa era a história que tínhamos até então, ainda nos primeiros minutos, antes de serem revelados o ecrã e o jogo de ficção, a parede rompida entre o público e o filme. A Mamãe está cheio de referências a Hitchcock, com seu Norman Bates gordinho (Michael Lerner), frustrado assistente de oftalmologista guiado pela mãe irritante e hipnótica (Zelda Rubinstein) que recorre a símbolos como a espiral, o caramujo e os pássaros.

Por sinal, um desses bichos foge da gaiola ainda no início e nos remete à sequência de abertura de Os Pássaros. A obra de Hitchcock volta a atormentar, mais tarde, quando lembramos do cadáver do velho homem com os olhos arrancados, naquela pequena cidade à qual a bela Melanie Daniels (Tippi Hedren) – da cidade grande – vai causar desequilíbrio.

Os olhos arrancados são, no filme de Hitchcock, a representação perfeita da cegueira à qual a pequena cidade é submetida; em Os Olhos da Cidade São Meus, Luna coloca a questão em outro patamar, para pensar no próprio cinema: tomar os olhos – todos os olhos da cidade – é poder ver por todos, é entender o que todos almejam, é, na loucura proposta, tomar o complexo de projeção/identificação contido em cada um dos espectadores da sala escura.

O primeiro assassino, filho controlado, é o clichê do solitário e impotente; o segundo, com arma de fogo, é o estado de identificação máxima com a tela: a representação do estado de transe ao qual todos nós, em menor medida, somos submetidos. Para Luna, chegar às últimas consequências não significa dizer que o cinema é perigoso, mas constatar o quanto somos mobilizados pela tela. Nos créditos, recorda-se que tudo se trata apenas de um filme.

Dois assassinos, um em cada sala, um em cada universo, à medida que as camadas refletem-se. No fim, chega-se à maior aproximação entre elas: uma das vítimas do atirador acredita ter o olho perfurado pela personagem da tela. Significativa, essa relação leva-nos a outro Hitchcock: em Janela Indiscreta, o observador penetra outra camada (outro filme) com alguma segurança até o momento em que o observado (o vilão) resolve invadir seu espaço.

Todo espectador de cinema é um voyeur, diz Luna. Todos nós, na sala escura, estamos submetidos aos choques da ficção. Os Olhos da Cidade São Meus põe em marcha uma situação que extrapola a tela, na qual a sala do espetáculo torna-se palco do terror (da ação), na qual não há mais divisórias e, por isso, vive-se o medo real.

Previsível que, do lado de fora, um homem não acredite no pedido de socorro da menina que consegue escapar. Nessa camada, à luz da rua, em um dia como outro qualquer, também sentimos dificuldades para aceitar o cinema como um local perigoso. Luna não nos conforta; seu horror agora se aproxima demais da realidade.

Há homens demais atormentados pelas mães. Estão por aí, sozinhos, e tentam compensar suas castrações com suas armas. São covardes. Ao cinema, terminam não raro como figuras ridículas. São atormentados por símbolos como aves que penetram a cabeça de suas vítimas, espirais de efeito alucinatório, caramujos que, como esses mesmos filhos, precisam viver para arrastar um casco, um refúgio, ou uma mãe.

(Angustia, Bigas Luna, 1987)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Eles Vivem, de John Carpenter

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