Corra!, de Jordan Peele

O receio logo se transforma em medo, depois em pavor, quando o rapaz negro dá-se conta de que não está em uma casa de pessoas brancas “normais” e acolhedoras. A promessa da sociedade plural e livre de preconceitos não se realiza. Ele está ali para ser morto, servir a uma experiência. Custamos, como ele, a acreditar nesse desfecho.

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Há sempre um instante de enganação, de nós para nós mesmos, voltando às saídas fáceis e à crença na bondade alheia: eles não seriam capazes de algo tão macabro, tão perfeitamente arranjado – ainda que sobrem, fartos, os sinais contrários. É o que o diretor Jordan Peele sabe fazer bem: modular nossas emoções para que nos enganemos.

Isso não retira o peso da participação e o poder do espectador ao longo de Corra! Ao contrário, é por esse estranho peso que o filme realiza-se tão bem: quando nos damos conta de que embarcamos no mesmo pesadelo de Chris (Daniel Kaluuya), só resta torcer para que ele retribua com a mesma moeda. Todos serão macabros.

O filme pode ser compreendido como parte de um teste – para Chris, para nós ainda mais. O título é, desde o início, um aviso, um grito, e insiste em indicar a personagem mais frágil mas necessária a esse jogo torto: o amigo com quem o protagonista conversa ao longo da história, o camarada que vai à casa do outro alimentar seu cão nos dias em que é levado para conhecer a família da namorada.

Nessa América em que brancos psicóticos fingem civilidade e elogiam Barack Obama para dar sequência a um teatro de absurdos, o rapaz negro termina por desconfiar primeiro de si mesmo, e nós de nós mesmos. Por que a crença na possibilidade do bem é sempre maior? Por que tal família, aos sinais desejados, com pai, mãe e filha tão perfeitos aos novos tempos, não pode deixar de engendrar o terror consumido com sangue?

O protagonista sofre com seu passado. É alguém bom e culpado por ter ficado em casa sozinho, vendo televisão, no dia em que a mãe foi vítima de um atropelamento. Não é difícil sacar sua história: jovem, ele aprendeu a desconfiar, a fotografar para ver mais; não à toa, em diferentes momentos flagra a estranheza da família da namorada através de sua câmera.

Seus olhos servirão, sem coincidência alguma, ao homem cego e poderoso que arremata seu corpo em leilão. Vítima, perto dali, ele jura amor à namorada e é servido de bandeja. A essa altura, a casa dos sogros é ocupada por pessoas mais velhas, senhores que querem viver para sempre, figuras assustadoras e deformadas que nos fazem recordar dos vizinhos de Rosemary no grande filme de terror de Roman Polanski de 1968.

Mas, diferente do polaco, Peele oferece o interior de sua personagem central, seu calabouço, o espaço escuro pelo qual escorre para ver no alto uma televisão recheada de gente branca e bela, o pior dos pesadelos; em sua casca frágil, Rosemary coloca-nos em dúvida maior, no espaço palpável, bruto, com o qual ela naturalmente não combina.

A namorada, interpretada por Allison Williams, soa amável. Repreende um policial na estrada quando o mesmo pede a identidade do companheiro. Com ela ao volante, eles atropelam um cervo. A sequência cumpre duas funções: o animal morto representa a mãe inocente, o policial a figura de autoridade com a qual Chris aprendeu a viver.

A ideia da superioridade física da raça negra está presente. Os anfitriões têm na parede da casa uma foto do avô que, em décadas anteriores, disputou e perdeu uma corrida para Jesse Owens, o atleta negro que mais tarde venceu as Olimpíadas na Alemanha de Hitler. Os vilões querem mais do que matar gente negra; querem seus corpos e sua força.

(Get Out, Jordan Peele, 2017)

Nota: ★★★☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
O Oficial e o Espião, de Roman Polanski

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