O Mistério da Torre, de Charles Crichton

O funcionário público interpretado por Alec Guinness cansou de ver tanto ouro sem que uma pequena parte – a menor delas, a partícula a ser agarrada com a ponta do guarda-chuva – fosse parar no seu bolso. Em O Mistério da Torre, há um sentimento de exclusão, de encolhimento, o do homem comum que não enxerga sua parte no bolo.

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O que vem em seguida, na típica e deliciosa estrutura da comédia Ealing, é a tentação: esse mesmo homem vê-se entre um assalto ousado, agarrado ao que pode fazer da formiga um elefante. É a ideia de que alguém como Holland, aparentemente um caxias, pode se rebelar contra o sistema, ser capaz de desfalcar a coroa britânica.

É ele quem conta a história, passado algum tempo, já instalado no Brasil. Fugido, rico, com dinheiro a distribuir a todos na republiqueta de bananas que se insinua. O que fazem os novos ricos – os criminosos – nesses locais? Fingem ascensão social, tornam-se o que não podem ser em seus países de origem: dão festas, ganham fama entre mulheres e embaixadores.

Charles Crichton, com roteiro de T.E.B. Clarke, não precisa mais que alguns contornos provincianos para nos fazer amar essas criaturas em cena. A Guinness soma-se Stanley Holloway como o comparsa Pendlebury. O primeiro representa o cidadão aparentemente correto, que não pode revelar suas diferenças; o outro já está pronto.

O momento em que o primeiro conta para o segundo sobre o ouro e como este pode ser derretido e contrabandeado é interessante: Pendlebury está moldando um busto em pedra e, com tão pouco, revela no ato ser alguém maleável (o que o colega finge não ser), o artista escondido atrás do homem de negócios, o inglês paciente.

Sob as expressões de Holland desenha-se a vingança do trabalhador médio que, ao longo dos anos nas mesmas funções, preso ao mesmo terno, não viu a riqueza aumentar; no novo amigo, o pequeno empresário que exporta miniaturas da Torre Eiffel para a França, para serem vendidas na própria Torre Eiffel, encontra a vazão ao seu desejo.

Guinness, como de costume, está perfeito: pode ser o larápio manjado gastando dinheiro em país latino ou o funcionário eficiente, o bom inquilino que lê para a velhinha insuspeita de seu prédio (tipo de senhora simpática que retornaria em Quinteto da Morte). Pode ser o homem que quiser sem alterar radicalmente o semblante.

Impotência e infantilidade são comuns nas comédias Ealing. Não estranha que a Torre Eiffel passe do simulacro às propriedades reais. Os criminosos concretizam desejos de grandeza na aventura feita à cobiça, no pesadelo que ganha forma nas alturas. Correm pelas escadas da torre como se não saíssem do lugar; flutuam desesperados atrás do ouro.

O fato de a loja da Torre Eiffel não comprar o souvenir de algum fornecedor francês é mero detalhe. Por outro lado, pode residir aí uma crítica à resistência ao mundo globalizado que se desenha no pós-guerra, ambiente de pequenos sonhadores que terminam no interior de uma empreitada maior do que eles próprios, acostumados às miniaturas.

A sequência da perseguição durante uma convenção policial é deliciosa. Holland e Pendlebury fogem com uma das miniaturas de ouro entre cenários falsos de uma prisão, bonecos com fardas, novas indicações dessa estranha aventura na qual tudo se resume ao frágil, ao labirinto de papelão que não oculta sua matéria-prima.

(The Lavender Hill Mob, Charles Crichton, 1951)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
A Nau dos Insensatos, de Stanley Kramer

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