Paulo José (1937–2021)

Apesar de estar no teatro desde sempre, só me senti realmente ator no cinema. No teatro estava sempre dividido com outras tarefas, ou como diretor, ou cenógrafo, ou produtor. Não assumia até então plenamente a função de ator. Frequentemente era como se estivesse no palco no lugar de alguém, um stand-in

Quando cheguei no cinema, em O Padre e a Moça de Joaquim Pedro [de Andrade], todas as funções já estavam ocupadas. A única coisa que esperavam de mim é que eu fosse ator.

Essa exclusividade de função é que me fez aprofundar o que é o trabalho do ator, procurar todas as formas de me sentir cada vez mais capaz de corresponder às expectativas dos outros profissionais do filme. Ninguém queria que eu fizesse maquiagem, nem me ocupasse com o guarda-roupa. Nada! Todos achavam que eu, se estava ali, é porque era um ator. Só isso.

(…)

Foi excelente ter começado com o Joaquim Pedro. Ele me colocou dentro de uma relação extremamente rigorosa com o cinema e me ensinou, basicamente, a economia de meios expressivos. Ele havia sido aluno do Robert Bresson no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos (Idhec), em Paris, um grande cineasta e excelente mestre. Ele não queria que o ator expressasse absolutamente nada, pois para o Bresson era mais importante a execução da ação física, porque através dela é que os sentimentos seriam entendidos e não através de um close-up de um ator emocionado.

O Padre e a Moça foi inspirado no Diário de Um Cura de Aldeia, um livro do George Bernanos que o Bresson filmou em 1951. 

Joaquim viu o padre do poema do Drummond de forma semelhante ao padre de aldeia do Bresson, e a partir dele resolveu contar uma história de repressão, um negro amor de rendas brancas, algo quase trágico, porque no final da história, as mulheres que atacavam o padre por ele ter tentado levar a moça para longe dali, viravam seres malignos, uma espécie de fúrias gregas, as eríneas, que perseguem o casal transgressivo até uma gruta onde o prende e o sacrifica pelo fogo. 

Paulo José, ator, em Paulo José – Memórias Substantivas, em depoimento a Tania Carvalho (Coleção Aplauso, Imprensa Oficial; pgs. 81, 88 e 89). Acima e abaixo, Paulo José e Helena Ignez. O filme de Bresson é creditado no Brasil como Diário de um Padre ou Diário de um Pároco de Aldeia.

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