Tempo, de M. Night Shyamalan

Se por um lado a aceleração do tempo é o motor do mistério e do suspense, por outro, em Tempo, ela será a razão de todos os problemas. Na praia paradisíaca em que corre a história, as personagens estão aprisionadas, sem porta de saída. Ali, o tempo corre mais rápido, os minutos convertem-se em anos, em um dia vive-se uma vida inteira.

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O esmagamento proposto leva ao desespero, à correria, à revelação, sobretudo, do homem um pouco animal vivo em cada um – sem recuperar o fôlego. O diretor M. Night Shyamalan segue a cartilha esperada: insere gritos e algum terror a todo o momento, deixa escapar o ritmo que caracterizou algumas de suas melhores obras, como Corpo Fechado.

Por mais irônico que possa parecer, o problema do cineasta é justamente o controle do tempo – o seu tempo, o do cinema. A câmera passa por todas as personagens ao passo que tenta não perder nenhuma, para que caibam nos instantes nos quais a impressão de delírio ganha a vez, o pavor de crescer, desintegrar-se ao enxergar o fim incontornável.

Estranha situação em que a prisão parece apontar a inúmeras saídas: à frente, o oceano – a despeito de suas ondas incessantes, que retornam – e, para trás, o labirinto de rochas que convida à tentativa de escapar e se perder. Ou, para quem quer tentar outra saída, a escalada do mesmo paredão de pedras. Pensamos em todas essas possibilidades. Continuamos ali, com as personagens, enquanto uma a uma envelhece e morre.

Em algum ponto dessa história, Shyamalan deixa que levantemos a guarda: basta esperar pelo próximo grito, pelo próximo corpo boiando. Longe, sobre a montanha, o brilho, o movimento humano. Alguém assiste àquela experiência da natureza implacável, agora acelerada; todas as vítimas desse confinamento são fruto de uma experiência.

Ao centro está a família representada por Guy (Gael García Bernal) e Prisca (Vicky Krieps). Casal de opostos: ele, funcionário de uma empresa de seguros, precisa pensar sempre no futuro, nas possibilidades de risco; ela, funcionária de um museu, observa os fósseis para compreender mais sobre nossa civilização e, claro, o tempo passado.

Com dois filhos que começam a crescer em questão de horas, eles estão se divorciando. Aquela é a última viagem em família. Para completar, Prisca está doente, tem câncer, o que antecipa o questionamento sobre a morte. O paraíso é a busca pela felicidade e, nesse caso, seu oposto: a constatação de que tudo passa rápido demais.

Mãe e pai logo reconhecem os filhos mudados. Chegam a pensar em um vírus. O menor, Trent, engravida a menina que cresceu com ele naquelas poucas horas, filha de outro casal. O sexo é invisível a nós, está nas descobertas das crianças em corpos adolescentes, e a ousadia dessa relação é tratada de maneira rápida, perdida entre as tantas estranhezas da obra de Shyamalan, da graphic novel de Pierre-Oscar Lévy e Frederick Peeters.

Como mandam as regras de filmes do tipo, há sempre algum louco entre o grupo. E esse louco vem a ser justamente o médico, interpretado por Rufus Sewell. Mais que um bisturi, ele precisa de um canivete para impor o medo. É um homem rústico, afinal de contas. Corta as pessoas e descobre que esses cortes cicatrizam rapidamente; fala, em seu delírio, de um filme em que Jack Nicholson e Marlon Brando atuaram juntos.

Tempo fracassa ao tentar impor, com clausura, um clima de delírio coletivo, de mais perguntas que respostas. Shyamalan obteve sucesso na busca do mesmo em A Vila, sobre uma sociedade arcaica presa ao medo, cercada pela floresta e por supostos monstros. Nessas histórias, as trapaças estão sempre ligadas à ação humana.

Ainda resta a intrusão da ciência e sua busca por resultados que, para salvar milhões, permite matar alguns. Na ciência, o melhor e o pior de nós; na natureza, a indiferença, a ausência de qualquer romantização. Entre ambas, para efeito de emoção, preferimos a praia, com as pessoas deixadas ali por algumas horas: antes de se tornarem ossos e pó, elas precisam compreender a si próprias. Com algum tempo, erguem castelos de areia.

(Old, M. Night Shyamalan, 2021)

Nota: ★★☆☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Uma Criatura Gentil, de Sergey Loznitsa

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