Funções da Cinemateca, segundo Paulo Emílio Sales Gomes

Entre as variadas e complexas funções de uma cinemateca, a que desconcerta maior número de pessoas é a artística, é o lado museu de belas-artes da instituição. De início é preciso examinar uma das diferenças profundas entre a situação do cinema e a das outras artes. Fabricado num espírito industrial de consumo imediato, o cinema dá a impressão de ocupar uma situação privilegiada como difusor. No entanto, as grandes obras literárias ou artísticas, tendo ou não sido reconhecidas as suas qualidades no momento de sua criação, conquistam com o tempo um público cada vez maior, ao passo que no cinema o fenômeno é inverso. A grande obra cinematográfica entra em comunicação no início de sua carreira com um público imenso, tendo ou não sido reconhecidas as suas qualidades, e com o tempo, depois de ser incluída no repertório da cultura cinematográfica, só entrará novamente em comunicação com uma fração quantitativamente ínfima de seu público original. É a partir desta etapa que a obra de arte cinematográfica entra no processo válido para as outras artes, mas em condições mais difíceis por lhe faltar o prestígio da tradição. É a cultura cinematográfica das elites, incluindo os próprios cineastas, que precisa ser promovida, a fim de se criarem quadros que por sua vez trabalharão para elevar o gosto e as exigências do povo em matéria de cinema. Essa perspectiva é impensável sem uma cinemateca.

Algumas pessoas, em geral cineastas, retrucam que a melhor forma de promover a cultura cinematográfica do povo é fazer boas fitas novas, e não procurar interessá-lo pelas velhas, mesmo excelentes. Porém, não se faz bom cinema sem cultura cinematográfica e uma cultura viva exige simultaneamente o conhecimento do passado, a compreensão do presente e uma perspectiva para o futuro. Enganam-se os que confundem a ação das cinematecas com o saudosismo. Não é sem razão que o grande Festival de Antibes organizado pela Cinémathèque Française chamou-se Le Cinéma de Demain [O Cinema do Futuro]. Um dia serão publicadas as fichas de Orson Welles e Ingmar Bergman guardadas na Cinemateca de Nova York, Estocolmo e Paris e poderemos verificar melhor tudo o que esses cineastas devem ao estudo atento das obras do passado. E já é fato histórico o que para os russos significou Intolerância de Griffith, o primeiro filme a ser colecionado pela instituição que se transformaria na Cinemateca Soviética.

Até agora só me referi aos filmes difundidos pela grande indústria e que podem ser revistos, graças às cinematecas. É preciso não esquecer aqueles produzidos fora dos quadros industriais, por exemplo, os primeiros Buñuel ou os Fischinger, ou os que não conseguem distribuição, como La Règle du jeu, The Quiet One, ou os Sucksdorff, que só poderão ser vistos pelos interessados através da ação da Cinemateca. Sem ela não é possível uma visão ampla do cinema contemporâneo, tão limitada pelo mecanismo comercial da distribuição.

Será preciso lembrar os serviços que uma cinemateca presta diretamente à indústria cinematográfica, facilitando a reconstituição de paisagens urbanas, modas, hábitos, atmosferas afastadas no tempo e no espaço? Ou repetir que é impossível imaginar escolas de cinema sem os serviços prestados por uma cinemateca?

(…)

É preciso arquivar e proteger o maior número de filmes brasileiros. Não guardaremos tudo, sempre. Com o tempo irá sendo feita uma seleção. Mas a experiência internacional demonstra que não é prudente decidir cedo o que deve ou não ser conservado. Os imediatamente contemporâneos não são bons juízes da importância artística, histórica ou documentária das obras. Filmezinhos realizados por Griffith em 1912 e que a maior parte dos contemporâneos não distinguia da produção corrente da época eram a semente da moderna linguagem cinematográfica. Canudo e Delluc desprezaram Louis Feuillade, hoje tão poético para novas gerações francesas. Méliès, Porter, Mack Sennett, a enumeração nos levaria a refazer uma pequena história do cinema. Que seria completada com a citação de obras do passado que em seu tempo pareceram importantes e que perderam aos nossos olhos todas as virtudes.

Paulo Emílio Sales Gomes, historiador, crítico de cinema, professor e ensaísta, foi um dos idealizadores da Cinemateca Brasileira. O texto acima foi publicado no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo (“Funções da Cinemateca”, 23 de março de 1957) e reproduzido no livro Uma Situação Colonial? (Companhia das Letras, pgs. 341-343).

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