Orson Welles, Orson Welles!, por Salvyano Cavalcanti de Paiva

Se Orson Welles não existisse, Graham Greene o inventaria – escreveu um dia André Bazin. Acabou inventando, mesmo: o personagem de The Third Man/O Terceiro Homem, do diretor Carol Reed, só poderia ser vivido por Welles, ninguém mais. Como ator ou como diretor, Welles é diabólico. Esse diabolismo está presente até em atuações consideradas menores como em Prince of Foxes/O Favorito dos Borgias, e The Stranger/O Estranho. Já existe uma demonologia de Welles, e nela, ao verificarem os estudiosos ser muito difícil definir o homem como tal, apelam para defini-lo através do que tem de mais insólito, original, diferente.

Maldito desde o inicio, Welles tem a seu crédito poucos filmes bem aceitos pela sabedoria convencional. Macbeth é um filme maldito. Cidadão Kane, outro maldiçoado. Otelo/Othello, feito no Marrocos espanhol e até hoje não apresentado no Brasil. Também Falstaff. Nenhum outro diretor maldito mais autêntico.

Em Macbeth não é o que resta de Shakespeare o que impressiona, mas a força selvagem, oriunda do ator e do protagonista. Força selvagem cujas andanças, no Rio, em 1942, confirmaram de modo amplo. Quando Welles filmava por aqui o jamais editado It’s All True, razão de sua briga com os magnatas da RKO Rádio, eu estava no ginásio, curioso das coisas do cinema; ele, com 25 (vinte e cinco anos) de idade, já espantara o mundo por seus sucessos e seus escândalos no rádio, no teatro e no cinema. No primeiro, com a invasão marciana da Costa Leste dos Estados Unidos; com o segundo encenando o Julius Caesar, de Shakespeare, em roupagens modernas a conotações visíveis com a situação política e militar de alguns países contemporâneos; e Cidadão Kane já entrara, glorioso, e combatido pela imprensa de Hearst, para a História do Cinema.

Assisti a algumas de suas filmagens: na Avenida Rio Branco, por exemplo, uma noite em pleno carnaval; no Teatro Municipal, numa fria madrugada, em plenas escadarias, Gregg Toland ajeitando a câmera, Ruy Santos de assistente num “papo” inesquecível. Minha timidez de então não me deixou aproximar-me do gênio; conversei, com alguns dos que o cercavam, então, e depois. Chamavam-no louco. Vi-o dirigindo Linda Batista, Grande Otelo. Era um louco muito lúcido. Somente que sua lucidez não era e nem é como a dos medíocres, sinônimo de apatia, conformação ou falsa rebeldia. Nada do provincianismo eleito excentricidade, como fazem alguns imberbes do dia. Welles não seria o normal de Marafion ou Mallarmé, mas supranormal. Logo, excepcional. Há o caso da carraspana que o levou à casa de uma negra, na favela, e atrasou as filmagens por dias. Mau profissional? Em certo sentido, sim. Também o foi Sergei Eisenstein. Outra loucura de Welles que a imprensa espalhou mundo afora: atirou uma garrafa de champagne, com toda a força possível, numa boate de Nice, na sua ex-esposa Rita Hayworth, na época do namoro desta com Aly Khan. E o já aludido caso do rompimento com os magnatas da RKO, Welles impetuoso e quase desaforado, a gritar impropérios.

Macbeth: uma tragédia notável a despeito de ter o sotaque escocês dito por americanos – o que pode ter soado mal aos ingleses. Um filme que interpretava à moda de Welles o que Shakespeare queria dizer. Não se limitou a transcrever; recriou o universo macbethiano.

Welles seria um enfant gaté eterno? Válida é a pergunta. Na resposta: um intelectual consciente do seu valor, e do valor do indivíduo na sociedade contemporânea, na civilização ocidental, hoje. Dizem que antes de realizar Cidadão Kane, meteu-se na sala de projeções do Museu de Arte Moderna, de Nova York, e em outros cineclubes, e viu tudo o que se havia feito de melhor em cinema – desde Intolerância e Birth of a Nation até Erich Von Stroheim, E. A. Dupont – que deixou o menino Mário da Silva Brito poemariado, impressionadíssimo, em velho cinema de sua infância, em São Paulo -, a vanguarda francesa, o pessoal da Frente Popular, a grande escola sonora dos EUA com Ford, Walsh, Hawks, Wellman e Milestone à frente. Jamais produziu Welles um filme “social” com deliberada intenção demagógica, e nem confuso ou enigmático. Mas a partir de Cidadão Kane, suas obras sempre se revestiram de um caráter social humanista no qual o processo de comunicação é claro. Welles faz e entende de cinema. Faz obras de arte. E, inevitavelmente, sociologia. Desde Fídias e Apeles a Victor Hugo e Nelson Rodrigues.

O ritmo sincopado de Cidadão Kane, obra pessoal ainda que sumarizando e respeitando o passado e a obra dos grandes cineastas que o antecederam, sintetiza a cultura e a coragem de Welles. Ele admira Balzac, Freud, arquitetura colonial americana, música de jazz, carnaval brasileiro, mulatas – tudo o que tenha largas dimensões… Não se contentou em ter uma só mulher, polígamo exuberante, mas sem a preocupação de afetar como um Casanova. Bom garfo, até na mesa sua sensualidade.

Exuberância no cinema é apanágio de Welles: recorde-se, por exemplo, a sequência da perseguição na sala dos espelhos em Lady from Shanghai/A Dama de Shanghai. O uso da palavra em The Magnificent Ambersons/Soberba, cujo diálogo intenso não cansa graças à densidade dramática. Logo, Welles faz o cinema falado que fazia W. S. Van Dyke – não o parlatório filmado que hoje fazem Godard e sequazes. Novamente vale a pena citar André Bazin ao resumir a exuberância de Welles: um cidadão da Renascença na América do Século Vinte. Por isso, ninguém mais adequado para viver César Bórgia, na tela. Já o fez, com resultados positivos.

Welles foi menino pobre – nunca miserável. Hoje tem dinheiro, muito – não é homem rico, como Chaplin. Perdulário, gasta mais do que recolhe. Faz um filme de três em três anos, ou de cinco em cinco, como diretor. Nos intervalos, atua no palco ou em aparições curtas na tela, gasta com espalhafato. Tem atitudes de homem independente, consciente de sua individualidade num mundo de muros e viseiras: cansado de pagar imposto de renda e pensão alimentar a suas mulheres, cansado da burrice do Novo Mundo – aquela burrice dos seus concidadãos maravilhosamente dissecada por H. L. Mencken no artigo Bobus Americanus – mudou-se para a Europa. Entre a Itália, a França, a Espanha, vive, pensa. Porém tendo essa vida de nababo, de sibarita, está politicamente do lado dos fracos e dos oprimidos. Contra o Estado arrecadador e cerceador, contra o Poder Econômico. Contra a sociedade capitalista e contra a sociedade comunista.

Menino prodígio e exibicionista – mas um autor inquieto e inquietante. Escandalizou aos bem comportados de Hollywood durante três decênios: 40, 50 e 60. Quando entrou para o cinema não pensou em se enquadrar na máquina de fabricar espetáculos rendosos, mas em fazer arte. Daí, Cidadão Kane, Soberba, Jornada do Pavor, A Marca da Maldade, O Processo. Inventou e utilizou, pela primeira vez, a fotografia de campo profundo, de foco em todos os planos, graças a um grande cinegrafista e seu amigo, Gregg Toland*. Mas não o fez por excentricidade: o seu é um cinema de ideias. Usa a profundidade de campo para criar tensão dramática. Esta só é rompida por ação, como no caso da entrada abrupta e brutal do cidadão Kane no cenário, em todas as sequências. Welles também valoriza, através da ação interior, o realismo do plano fixo. Seus personagens se integram no ambiente. Não ficam recitando textos, nem fazendo citações, nem rodopiando sem sentido ou em alegorias irrelevantes para a mensagem. O ator interpreta, desempenha seu papel – e não permanece apenas passeando diante da câmera. Welles amplia a intensidade dramática em suas aparições episódicas: Jane Eyre, Moby Dick (discurso no púlpito), A Man for All Seasons/O Homem que Não Vendeu Sua Alma (o cardeal Wolsey, genial!). O semblante de Welles, sua voz grave e pausada, seus gestos, tudo dá a medida exata da composição.

Diabólico, já se disse antes: o ator e o diretor se completam no processo de criação. Ele choca seus colegas, procura chocá-los, mas ao público respeita porque o público entende e ele procura fazer-se entender. Jamais agrediu, com imagens pseudo-herméticas, a sua plateia. Welles tem uma fabulosa imaginação poética. Basta lembrar o caso da novela War of the Worlds/Guerra dos Mundos, de Herbert George Welles, que ele adaptou ao rádio e transmitiu num programa de rádio-teatro que mais tinha de rádio-jornal, em 1938 – causando pânico em toda a área leste dos Estados Unidos. Parecia estar irradiando, de Nova Jersey, a invasão do mundo pelos marcianos. Comunicava. Tal a força de convicção, o realismo, a veracidade – o interesse e a hipnose total do público.

Não é ponto pacifico que são os poetas que preservam e prolongam a infância? Welles é poeta: sua juvenilidade, sua jovialidade, até seus arroubos de perversidade, tudo se afirma com uma indecência voluntária e provocante. Welles é indecoroso: o eterno menino que nele existe é visível nas suas decisões mais originais. Fazer um filme sobre um personagem que aparece em três ou quatro peças diferentes de Shakespeare não constituirá uma audácia, uma temeridade? Os que viram Falstaff, na Europa, empregam os mesmos adjetivos bombásticos reservados ao Macbeth e ao Othello. Contudo, os produtores torcem a cara: Welles é veneno de bilheteria, costumam dizer.

Mas os filmes, lançados, merecem acolhida do público menos degenerado. Os subintelectuais godardianos ou resnaiseanos também torceram a cara: Welles é um cineasta ultrapassado…

Fogem de Welles acusando-o de egoísta colossal. É um conceito admitido desde os psiquiatras que o examinaram na infância até mulheres com quem conviveu ou manteve romances. É um glutão: come e bebe em demasia, veste-se com displicência – mas não desleixo, como certos “gênios” caboclos. Welles fala o tempo todo – sobretudo se provocado por um sujeito magro, barbudo, carioca, jazzmaníaco (mas acha que o jazz terminou com Bunk Johnson, na pré-história), cineasta, louco, donjuanesco e parlapatão. São amigos, e o carioca é personagem do romance do CHC. Welles gasta em excesso, até o que não possui: pendura contas. É um formidável perdulário. “Será desequilibrado?”, indagam os que não o conhecem, que são muitos. “Mas não é um deslumbrado”, afirma o seu amigo carioca, magro, barbudo, cineasta e louco.

Em recente entrevista à Playboy, a título de provocar a intelectualidade paissanduense que só acredita no cinema prescrito por Cahiers du Cinéma, Positif e outras mistificações, Welles disse que os três maiores diretores do cinema americano a quem mais admirava eram: John Ford e John Ford e John Ford. A turma bufou, chamando-o de reacionário…

Provocador social, iconoclasta, Welles realiza um tipo de cinema vivo, dialético, que responde às perguntas implícitas na mente de cada espectador. Provocador estético, Welles faz filmes ao mesmo tempo grandguinolescos e austeros. Vence pela sinceridade. O universo de Macbeth como o de Cidadão Kane é um universo onde a terra e o céu se encontram, estão unidos, como nas grandes tragédias gregas. Aliás, o teatralismo de Welles, sua alta compreensão da arte dramática, foi o que o levou a encenar Julius Caesar, do velho William, em trajes modernos – as roupas dos centuriões análogas à dos soldados da Espanha franquista.

O cinema de Welles é de um realismo ontológico que restitui ao objetivo e ao décor sua densidade própria, de um realismo psicológico que leva o espectador a participar intensamente do drama, na tela. Isto, sim, é ter consciência da missão do artista.

Correio da Manhã (22 de maio de 1968)

*Apesar de Cidadão Kane fazer uso da profundidade de campo com criatividade nunca vista até então, é importante lembrar que o recurso já havia sido utilizado antes pelo diretor de fotografia Gregg Toland em A Longa Viagem de Volta, de John Ford.

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