Confusões à Italiana, de Pietro Germi

As mulheres são belas, algumas são beldades, e em nada combinam com as palavras que deixam escapar. Elas repousam às sombras dos homens, sem maior protagonismo. Eles, que ainda acreditam ser jovens, que adoram rodas de bar, são livremente incorretos.

O filme volta-se aos rapazes, às suas aventuras e escapadas, infidelidades e traições sofridas, em clima de felicidade. O terreno é o da comédia à italiana, o qual Pietro Germi conhece bem: como as personagens de Mastroianni e Aldo Puglisi em filmes anteriores, os meninões de Confusões à Italiana movem-se pela libido, não resistem ao sexo oposto.

O trabalho de Germi é mais lembrado por ter ganhado uma inesperada Palma de Ouro em 1966, dividida com Um Homem, Uma Mulher, de Claude Lelouch, seu oposto: um filme de amor sério no qual os sexos em tela, a começar pelo título, têm peso semelhante. O italiano volta outra vez a uma brincadeira, ainda que guarde aspectos reais.

Confusões à Italiana – como Divórcio à Italiana e Seduzida e Abandonada, ambos de Germi – revela-nos a fraqueza de uma sociedade cristã obcecada pela fidelidade. Em seu oposto, nas raias da comédia, obcecada pela traição. Homens e mulheres saem à noite, terminam na festa de algum amigo, em danças e bebedeiras, escondidos atrás de um sofá, aos beijos com a mulher ou o homem de outro convidado, que caiu ali por acaso.

Os bonachões sofrem porque são frouxos, correm para seus lares para conferir se a mulher – mais nova, aparentemente burrinha – deitou-se com o amigo, o mesmo que, no primeiro dos três episódios, declara ser impotente. São várias personagens em cena, algumas histéricas, outras que se prestam apenas a observar a confusão instalada.

A caricatura recai sobretudo aos homens, essas figuras ovais que vivem para se arriscar com as mais belas da rua, ou da quadra, ou da pequena cidade. Às mulheres mais velhas restam os papéis da esposa e da senhora que vivem para cuidar da casa.

A velha Itália não escapa. Na comédia à italiana, ela duela com as novidades do pós-guerra, a influência de jovens que fugiram do campo à cidade grande e, na esteira das transformações sociais, encontraram espaço para viverem o espírito livre – até serem desbancados pela Igreja, pela lei ou pela moral. Vimos esse mesmo clima – mas sem o peso da farsa e no caminho inverso, da cidade ao campo – em Aquele que Sabe Viver, de Dino Risi, com seu anti-herói que recusa a passagem do tempo, um eterno rapazote.

Passado o primeiro episódio, sobre um caso de traição após uma festa, avançamos ao segundo, mais interessante, no qual um homem casado (Gastone Moschin) apaixona-se por outra mulher, a balconista interpretada por Virna Lisi. A vida dupla não se sustenta. O homem explode, vai embora, decide viver com a amante.

Germi explora momentos de aparente loucura para quase neutralizá-los, torná-los palatáveis, o que, dirão alguns, nada mais é do que colocar a vida real na perspectiva da própria comédia de costumes. O cineasta lança-nos piscadelas e parece dizer que todas essas inconstâncias (masculinas) compõem o espírito de um grupo que renunciou ao silêncio.

E desse grupo, sem esforço, passamos à sociedade. E do homem que decidiu assumir o romance com a amante e, com ela, desfilar em praça aberta, à suspeita de que se trata, como todos, de um traído – um cornuti. Lisi, sabemos, não é a esperada “moça de família”. Como outras, é uma bonequinha que esconde mais do que revela.

O terceiro e último episódio retorna aos amigos, aos problemas envolvendo uma moça do campo (Patrizia Valturri) com a qual, um a um, os homens fazem sexo. Passam a ser investigados por um policial engraçado vivido pelo já citado Puglisi.

Os problemas podem ser resolvidos com dinheiro ou sexo, ou com ambos. A igreja ocupa o fundo, em alguns momentos dá as caras na mulher (Olga Villi) que aborda os outros em busca de donativos. Por trás de belezas e exageros, Germi volta suas armas à terra conservadora e patriarcal na qual os homens vivem para a bagunça.

(Signore & signori, Pietro Germi, 1966)

Nota: ★★★☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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