O retorno de Luis Buñuel à Espanha e a proibição de Viridiana

Reproduzimos abaixo um trecho do livro Meu Último Suspiro, de Luis Buñuel (escrito com Jean-Claude Carrière), no qual o diretor relata seu retorno à Espanha e como se deu a realização de Viridiana.

VOLTEI À ESPANHA EM 1960 PELA PRIMEIRA VEZ EM 24 ANOS.

Em diversas ocasiões, depois do exílio, pude passar alguns dias com minha família em Pau ou em San Juan de Luz. Minha mãe, minhas irmãs e meus irmãos atravessavam a fronteira francesa para me encontrar. Vida de exílio.

Em 1960, naturalizado mexicano há mais de dez anos, pedi um visto ao consulado espanhol em Paris. Nenhuma dificuldade. Minha irmã Conchita veio me esperar em Portbou para dar o alarme em caso de incidente ou detenção. Mas não aconteceu nada. Alguns meses mais tarde, dois policiais à paisana me fizeram uma visita e se informaram polidamente dos meus meios de subsistência. Foram minhas únicas relações oficiais com a Espanha franquista. 

Passei primeiro por Barcelona, depois por Zaragoza, antes de voltar a Madri. Desnecessário dizer minha emoção ao reencontrar os lugares da minha infância e juventude. Assim como no meu retorno a Paris, dez anos antes, acontecia-me chorar ao caminhar por essa ou aquela rua.

Durante essa primeira temporada, que foi de apenas algumas semanas, Francisco Rabal (Nazarín) me apresentou um sujeito extraordinário, que deveria se tornar meu produtor e amigo, o mexicano Gustavo Alatriste.

Já estivera brevemente com ele alguns anos antes, no set de filmagem de Ensaio de um Crime. Na ocasião, ele fazia uma visita a uma atriz, com quem se casou e da qual se divorciou para voltar a se casar com Silvia Pinal, cantora e atriz mexicana. Filho de um organizador de rinhas de galo, grande aficionado de galos-de-briga, homem de negócios múltiplos, dono de duas cadeias de lojas, terrenos, uma fábrica de móveis, ele acabara de resolver lançar-se no cinema (hoje possui 36 cinemas no México, virou distribuidor, diretor e até ator; logo terá seus próprios estúdios), e me sugeriu um filme. Alatriste é uma espantosa mistura de astúcia e inocência. Em Madri, acontecia-lhe por exemplo assistir à missa para que Deus o ajudasse a resolver um problema financeiro. Um dia me fez a seguinte pergunta, extremamente sério: “Existem marcas exteriores que permitam distinguir um duque de um marquês ou de um barão?”. Respondi que essas marcas não existiam, e minha resposta pareceu satisfazê-lo.

Bonito, sedutor, capaz de presentes principescos, de reservar para nós dois, sabendo que minha surdez não aprecia lugares muito cheios, a sala inteira de um restaurante de luxo, capaz também de se esconder no banheiro de seu escritório para não pagar duzentos pesos a uma jornalista, amigo de políticos, vaidoso e cheio de charme, Alatriste, que me propunha um filme, não conhecia nada de cinema.

Acrescento uma história típica: um dia ele me comunicou que estava deixando o México no dia seguinte e marcou um encontro comigo em Madri. Três dias depois, eu soube por acaso que ele não saíra do México. Por uma boa razão: estava arraigado (“enraizado”), não podia partir, pois devia dinheiro a alguém. No aeroporto, tentou subornar o fiscal, ofereceu-lhe 10 mil pesos (quatrocentos ou quinhentos dólares). O fiscal, pai de oito filhos, hesitou, mas acabou recusando. Quando falei sobre isso com Alatriste, ele reconheceu candidamente os fatos. Acrescentou que a soma que devia e pela qual estava arraigado não passava de 8 mil pesos – menos do que ele oferecera ao fiscal.

Alguns anos mais tarde, Alatriste me ofereceu um salário mensal, bastante alto, para poder vir de vez em quando me pedir conselhos cinematográficos e morais. Rechacei sua oferta – mas ele tem direito a meus conselhos gratuitos sempre que quiser.

Viridiana
No navio que me trazia de volta à Cidade do México, depois de Madri, recebi um telegrama de Figueroa propondo-me não sei qual história de selva. Recusei e, como Alatriste me dava plena liberdade – liberdade que nunca se desmentiu -, preferi escrever sobre um tema original, a história de uma mulher que chamei de Viridiana, em alusão a uma santa pouco conhecida de que me haviam falado no colégio em Zaragoza.

Meu amigo Julio Alejandro me ajudou a desenvolver um antigo devaneio erótico, a que já aludi, no qual eu abusava da rainha da Espanha graças a um narcótico. Uma segunda história veio enxertar-se nessa. Quando o roteiro ficou pronto, Alatriste me disse:

– Vamos rodar na Espanha.

Isso colocava um problema para mim. Só aceitei com a condição de trabalhar com a produtora de Bardem, conhecida por seu espírito de oposição ao regime franquista. Apesar disso, assim que minha decisão foi conhecida, vivos protestos ergueram-se no México, no círculo dos emigrados republicanos. Mais uma vez eu era atacado e insultado, mas agora os ataques vinham daqueles com os quais eu me perfilava.

Amigos me defenderam, o que gerou uma polêmica sobre o tema: Buñuel tem o direito de ir filmar na Espanha? Isso não é uma traição? Lembro-me de uma charge de Isaac publicada um pouco mais tarde. Via-se num primeiro desenho Franco à minha espera em solo espanhol. Chego dos Estados Unidos, levando os rolos de Viridiana, e vozes ultrajadas gritam: “Traidor! Vendido!”. Essas vozes continuam a berrar no segundo desenho, enquanto Franco me recebe amavelmente e lhe entrego os rolos – que, no terceiro desenho, explodem na cara dele.

O filme foi rodado num estúdio, em Madri, e numa belíssima propriedade fora da cidade. Estúdio e casa hoje não existem mais. Eu dispunha de um orçamento normal, excelentes atores, sete ou oito semanas de filmagem. Reencontrava Francisco Rabal e pela primeira vez trabalhava com Fernando Rey e Silvia Pinal. Alguns dos atores idosos, que faziam pontas, eu conhecia desde Don Quintín e outros filmes que produzi nos anos 1930. Guardo uma lembrança especial do indivíduo extravagante que interpretava o leproso, meio mendigo, meio louco. Ele tinha autorização para morar no pátio do estúdio. Furtava-se a toda direção de ator, e, no entanto, acho-o maravilhoso no filme. Algum tempo depois ele estava em Burgos, num banco de praça. Passaram dois turistas franceses que viram o filme. Reconheceram-no e o parabenizaram. Ele juntou imediatamente seus magros pertences, jogou uma trouxa no ombro e saiu a pé dizendo: “Vou para Paris! Sou conhecido por lá!”.

Morreu no caminho.

No artigo que já citei a respeito da minha infância, Conchita fala das filmagens de Viridiana. Passo-lhe novamente a palavra:

Durante as filmagens fui a Madri como “secretária” de meu irmão. A vida madrilenha de Luis foi, como quase sempre, a de um anacoreta. Nos hospedávamos no 17º andar do único arranha-céu da capital. Luis achava-se ali como um austero monge sobre uma coluna.

Com o agravamento de sua surdez, ele só via as pessoas que não podia deixar de ver. Havia quatro camas no apartamento, mas Luis dormia no chão, com um lençol e um cobertor, todas as janelas abertas. Deixava frequentemente sua mesa de trabalho para olhar a paisagem: ao longe a montanha, mais próximos a Casa Campo e o Palácio Real.

Recordava-se de seus anos de estudos e parecia feliz. Dizia que a luz de Madri é única, mas eu a vi mudar várias vezes do amanhecer ao crepúsculo. Todas as manhãs Luis admirava o nascer do dia.

Jantávamos às sete da noite, o que é incomum na Espanha. Frutas, queijo e algum bom vinho de Rioja. Ao meio-dia, comíamos sempre num bom restaurante. Nosso prato predileto: leitão assado. Desde então passei a arrastar um complexo de canibalismo e às vezes sonho com Saturno devorando os filhos.

Luis melhorou um pouco de sua surdez e começamos a receber gente: velhos amigos, jovens do Instituto Cinematográfico, a equipe de filmagem. Li o roteiro de Viridiana e não gostei. Meu sobrinho Juan Luis me disse que uma coisa era um roteiro de seu pai, outra coisa o que ele fazia com o roteiro. De fato.

Presenciei a filmagem de algumas cenas. Luis tem uma paciência de anjo e nunca se irrita. Manda recomeçar e recomeçar.

Um dos doze pobres que atuam no filme é um autêntico mendigo, o que é chamado de “leproso”. Meu irmão soube que esse leproso recebia três vezes menos que os demais. Diante disso, manifestou sua indignação junto aos produtores, que tentaram acalmá-lo dizendo que no último dia de filmagem fariam uma coleta para o mendigo. A indignação de Luis aumentou ainda mais, pois ele não podia aceitar que uma esmola pagasse um trabalho. Exigiu que o mendigo passasse no caixa semanalmente, como todo mundo.

Os “figurinos” do filme são autênticos. Para encontrá-los, percorremos os subúrbios e embaixo das pontes, demos aos pobres e vagabundos roupas novas em troca de seus andrajos. Estes foram desinfetados, mas não lavados, embora os atores cheirassem realmente a miséria.

Durante seu trabalho no estúdio, não vi meu irmão. Ele se levantava às cinco, saía antes das oito e só voltava onze ou doze horas mais tarde, o tempo de jantar e deitar-se imediatamente no chão para dormir.

Ainda assim, tínhamos nossos momentos de distração e nossos jogos. Um desses jogos consistia, nas manhãs de domingo, em arremessar aviõezinhos de papel do alto do nosso apartamento no 17º andar. Não nos lembrávamos mais como construí-los: seu voo era pesado, desajeitado e peculiar. Nós os atirávamos juntos. Aquele cujo avião “aterrissasse” primeiro perdia. O castigo do perdedor consistia em comer a quantidade de papel equivalente ao avião temperado com mostarda ou, no meu caso, com açúcar e mel.

Outra ocupação de Luis: esconder dinheiro num lugar difícil ou imprevisível. Eu tinha que encontrá-lo por dedução. Assim, melhorei sensivelmente meu salário de secretária.

Conchita devia deixar Madri durante as filmagens, pois nosso irmão Alfonso morrera em Zaragoza. Mais tarde, voltaria a conviver comigo no La Torre de Madri, esse arranha-céu de apartamentos claros e amplos, hoje tristemente transformados em escritórios. Com ela e outros amigos, íamos frequentemente saborear a cozinha simples mas deliciosa de doña Julia, numa das melhores tabernas de Madri. Foi nessa época que conheci o cirurgião José Luis Barros, hoje um de meus melhores amigos.

Pervertida por Alatriste, que um dia lhe deu oitocentas pesetas de gorjeta para uma conta de duzentas, doña Julia me apresentou da vez seguinte uma nota astronômica, una cuenta de gran capitán. Paguei sem discutir, bastante surpreso, depois comentei com Paco Rabal, que a conhecia bem.

Ele lhe perguntou as razões daquela conta monumental. Ela respondeu com a mais deslavada ingenuidade: 

“Como ele conhece o señor Alatriste, achei que ele fosse milionário!”

***

Nessa época, eu frequentava quase diariamente o que talvez tenha sido a última peña de Madri. Ela se realizava num velho café de antigamente, o Café Viena, e reunia José Bergamín, José Luis Barros, o compositor Pittaluga, o toureiro Luis Miguel Dominguín e outros amigos. Às vezes, ao entrar, eu cumprimentava os que já se encontravam lá, esboçando furtivamente os sinais de cumplicidade da franco-maçonaria, à qual nunca pertenci. Sob a Espanha franquista, isso representava certa inclinação pelo risco.

A censura espanhola era célebre então por sua formalidade meticulosa. Num primeiro desfecho, eu simplesmente imaginara Viridiana batendo à porta de seu primo. A porta abria, ela entrava, a portava fechava.

A censura recusou esse epílogo, o que me levou a imaginar um novo final, muito mais pernicioso que o primeiro, pois sugere claramente um ménage à trois. Viridiana vem se intrometer num jogo de baralho que opõe seu primo a outra mulher, que é sua amante. E o primo lhe diz: “Eu sabia que você acabaria por jogar tute conosco”.

Viridiana provocou na Espanha um escândalo bastante considerável, comparável ao de A Idade do Ouro, que me absolveu junto aos republicanos que moravam no México. De fato, por causa de um artigo muito hostil no Osservatore Romano, o filme que acabava de obter em Cannes a Palma de Ouro na categoria filmes espanhóis foi imediatamente proibido na Espanha pelo ministro do Turismo e da Informação. Ao mesmo tempo, o diretor-geral da Cinematografia espanhola foi prematuramente demitido por ter subido no palco, em Cannes, a fim de receber o prêmio.

O caso fez tanto rumor que Franco pediu para assistir ao filme. Acho inclusive que assistiu duas vezes e que, segundo o que me contaram os co-produtores espanhóis, não achou nada de muito criticável (na realidade, depois de tudo o que vira, o filme devia parecer bem inocente). Mas se recusou a desautorizar seu ministro, e Viridiana continuou proibido na Espanha.

Na Itália, foi lançado primeiro em Roma, onde ia bem, depois em Milão. O procurador-geral dessa cidade proibiu-o, entrou contra mim na justiça e conseguiu que eu fosse condenado a um ano de prisão caso pusesse os pés na Itália. Decisão que foi anulada depois pela Suprema Corte.

A primeira vez que viu o filme, Gustavo Alatriste ficou um tanto pasmo e não fez nenhum comentário. Reviu-o em seguida em Paris, depois duas vezes em Cannes, e finalmente no México. Na saída desta última vez, a quinta ou a sexta, veio até mim todo contente e disse:

“Luis, perfeito, é formidável, entendi tudo!” 

Foi a minha vez de ficar perplexo. O filme me parecia uma história extremamente simples. O que havia nele de tão difícil a ser entendido?

Vittorio de Sica viu Viridiana no México e saiu horrorizado, oprimido. Saiu de táxi com Jeanne, minha mulher, para ir tomar um trago. No caminho, perguntou a ela se eu era mesmo monstruoso e se costumava espancá-la na intimidade. Ela respondeu:

“Quando precisa matar uma aranha, ele vem me chamar.”

Em Paris, perto do meu hotel, vi um dia o cartaz de um dos meus filmes com este slogan: “O diretor mais cruel do mundo”. Burrice que me entristeceu muito.

As fotos do cabeçalho e ao longo do texto são do filme Viridiana

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Veja também:
O Pagador de Promessas, por B.J. Duarte

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