Os Russos Estão Chegando! Os Russos Estão Chegando!, de Norman Jewison

Os americanos desesperam-se antes mesmo de encarar os russos. Alguém alerta para o risco de estupros e mortes na pequena cidade. A turba reunida próxima ao porto saca armas de fogo e até suas espadas. Isolada, ela está pronta para a guerra na comédia de Norman Jewison, Os Russos Estão Chegando! Os Russos Estão Chegando!

O título alude ao medo, ao grito final: é quando um cavaleiro bêbado e patriota, que passou o dia todo tentando montar sua égua, enfim consegue dar sentido à sua existência e cumprir o que tomou para si como missão: chega a uma ruela para declarar que os soviéticos estão em vias de invadir aquela terra de liberdades, na qual os fracos ainda se creem fortes.

A impotência e a cegueira do bêbado dão o tom. Não só. Outras personagens ajudam a entender que as armas de Jewison, mais que aos russos, estão voltadas aos americanos, a esse povo bairrista e jeca que, agora como farsa, repete os que os ingleses fizeram para resistir em 48 Horas!, famosa obra bélica dirigida pelo carioca Alberto Cavalcanti.

Reina o absurdo, claro. O tempo é de Guerra Fria, de comunistas que jantam criancinhas, de figuras que não se limitam ao visível para causar pavor: o invasor está antes de estar. Basta que se anuncie para que o medo seja instalado. Com os russos aportados mas escondidos, pensamos ver algo como Vampiros de Almas ou Guerra dos Mundos – sem alienígenas.

A excentricidade – ou o ridículo – fica por conta do dono da casa. Com as senhoras que empunham cartazes de alerta, puxadas por uma moto; com os senhores saudosistas, filhos das legiões de espadas e pompa, que precisam tanto de um picadeiro quanto de uma guerra para anunciar a grandeza americana; com os policiais cansados e descrentes desse clima que, sabem eles, veja só, mais parece obra de um bando de loucos.

Os russos existem. São pessoas normais, um pouco ridículas. O submarino com o qual viajam termina atolado em bancos de areia quando seu líder aproxima-se demais da terra firme para tentar enxergar as delícias da América. Atitude típica de uma Ninotchka, em busca dos champanhes e noites de festa que os capitalistas sabem prover como ninguém.

O protagonismo é duplo: de um lado o americano, o escritor em férias com sua família na casa à beira-mar, Walt Whittaker (Carl Reiner); do outro, o oficial soviético malicioso o suficiente para ler no rosto dos demais – amontoado de idiotas atrás de seu pescoço – os vícios que o permite ver a si mesmo, o tenente Rozanov (Alan Arkin).

Pois é disso que trata a interessante comédia de Jewison, com roteiro de William Rose, da obra de Nathaniel Benchley: os lados aproximam-se o suficiente para se misturarem. Os americanos são os russos (os verdadeiros alienígenas), os russos são os americanos (crentes de que podem se esconder e escapar, terminam desmascarados por uma criança).

No desespero de Reiner ou no suor de Arkin desnuda-se um tempo no qual a comédia – como se viu pouco antes com Dr. Fantástico – permite entender melhor o homem e suas fantasias, suas manias de grandeza e absoluta pequenez. Enxergamos, graças a essa estrutura, o quanto a ideologia intoxicante promove, sem esforço, a imbecilidade generalizada.

Antes de frases manjadas ou discursos sobre a força de uma nação, o homem resume-se ao instinto, que prevalece sobre a racionalidade. No resgate de uma criança pendurada no telhado da igreja, não há mais russos ou americanos ou brancos ou negros. Com o pai de família a arma não combina, com o tenente a aparência do homem ponderado não se sustenta. Revelam-se enquanto estrangeiros e locais insistem em se separar.

A obra de Jewison funciona melhor com os exageros, as personagens gritantes, desesperadas, nesse dia diferente em que os locais precisam tirar suas armas do armário e a polícia não tem mais controle sobre a cidade. Retorna o mito em frangalhos: o cowboy que monta sua égua e informa, aos berros, o início do conflito que nunca começou.

(The Russians Are Coming the Russians Are Coming, Norman Jewison, 1966)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Entre Deus e o Pecado, de Richard Brooks

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