Martin Eden, de Pietro Marcello

Basta o rápido contato com um livro para que Martin Eden fique encantado. A abertura das folhas coincide com a abertura da nova casa, o lar burguês ao qual ele, pobretão, é levado pelo rapaz que acabou de salvar em região portuária. Por acaso ou destino, o menino era agredido quando ele, por instinto e justiça, resolveu intervir.

O ingresso à casa rica faz com que a personagem-título do filme de Pietro Marcello, da obra de Jack London, queira ser como seus ocupantes: não é apenas o acesso ao que há de melhor, à vida de benesses, mas o mundo pelos olhos dessas mesmas pessoas finas e bem vestidas com acesso ao conhecimento, à cultura, aos melhores livros.

Da parte pobre da cidade, na qual todos parecem falar alto e viver às turras com os outros, de gente como o próprio irmão falastrão do protagonista, Eden sai com o oposto. A forma encontrada para escapar é também o que lhe traz de volta àquela realidade: a leitura. Com ela, o desejo de ser escritor; com ela, depois, a consciência de viver entre castas.

O velho problema de quem pensa demais e, por isso, resolve enxergar. Em Martin Eden, Marcello envolve-nos com uma personagem interessante, nunca heróica, quase trágica, alguém que se debate com o que consome – ao passo que esse bem, o conhecimento, leva-o igualmente a algumas desgraças, ao seu possível futuro, ao devaneio.

Eden, pelo belo rosto de Luca Marinelli, fica entre o rapaz honesto que consegue conquistar a menina rica e o pensador estourado que recusa se alinhar aos revolucionários, em vermelho, de seu tempo. Outro problema dos intelectuais: não estar nem de um lado nem de outro, não suportar a burguesia e tampouco a fúria do proletário aglomerado.

Enquanto pinça palavras e as põe no papel, primeiro pelo lápis e depois pela máquina de escrever antiga que consegue comprar com moedas que leva no bolso, Eden ultrapassa a imagem do ignorante deslumbrado; será, para nossa surpresa, alguém com alguma bagagem, união entre o que o mundo lhe pôs e o que dos livros retirou.

Um homem, por assim dizer, quase completo não fossem as fraquezas do coração, as dores de quem olha ao lado – para a amada, para a família mesquinha da moça, para o amigo suicida, para os operários com gritos de guerra – e não encontra outro caminho senão o da estrada, o da natureza, o da bebedeira ao som dos trovões, para esquecer.

Enquanto vaga ao encontro do inevitável, algo que o traga para o pior, Eden assiste ao universo estranho que Marcello povoa com imagens de época. Beleza do passado, dos meninos e meninas que dançam, dos trabalhadores portuários de cabelos crespos, de tantas e tantas imagens granuladas e reais. Marcello fala-nos da experiência, da vida palpável.

Seu protagonista viveu uma aventura e, no sonho ou realização que ocupa a parte final, quando enfim encontra o sucesso como escritor e enriquece, termina por detonar o que antes almejava: o reconhecimento por seus pensamentos, pelos livros escritos. Tem tudo e nada. Eden é como todos os insatisfeitos que continuam fazendo perguntas.

Esses sonhos, na parte derradeira, dão lugar ao anúncio da guerra: lá está ele, homem formado, a pensar sobre os horrores que todos aqueles outros homens ao lado, dispersos, aparentemente indiferentes, enfrentarão. O horror que se avizinha no rosto mais simples – a ocupar a tela toda, a nos avisar do destino de gente como Eden.

O maior mérito desse interessante filme é não conceder a verdade ao protagonista. Seu olhar é sempre conflituoso. Enquanto ignorante, pode ser maior do que o homem que vem a ser, o escritor formado e famoso. No ápice da dor, sem controle sobre a própria vida, ele confirma o que imaginávamos: a única tranquilidade possível é a morte.

(Idem, Pietro Marcello, 2019)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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