Bela Vingança, de Emerald Fennell

Os rapazes desesperam-se quando a polícia bate à porta, na parte final de Bela Vingança. Melhor não revelar muito sobre o desfecho. Nessa passagem, como em outras, interessa-nos a opção da cineasta Emerald Fennell por retratar o medo masculino com toques cômicos. Quando agarrados, os abusadores revelam-se patéticos.

Na cápsula de suposta normalidade desses mesmos meninos, as meninas bêbadas precisam ser levadas para casa, tarde da noite, com o passaporte “faça o que quiser”. Afinal, pensam os mesmos abusadores, presos à cultura do macho, essas mulheres pecam ao se entregar ao álcool, ao exagero, e são assim declaradas “disponíveis”.

A lógica perversa desse jogo comum mas abafado, desse exemplo entre tantos de como homens insistem, como crianças, a tomar o que não lhes foi dado, move o filme e as ações da protagonista: Cassandra (Carey Mulligan) viu de perto, na melhor amiga, o que pode ocorrer a alguém estuprada por um bando de moleques que se creem poderosos.

O filme de Fennell é um sonho de vingança permeado por guloseimas, ambientes em branco e rosa, pela aparência de casa de bonecas que a vida americana em questão reforça. A realidade total inclusive nos é negada: o vídeo do estupro, a certa altura revelado, chega-nos apenas pelo olhar da heroína. Imaginamos o horror enquanto vagamos pelas cores enjoativas, pelo brilho forçoso, pelos muffins expostos na vitrine.

O que há de mais cruel penetra essa sociedade de universidades respeitadas e filhos médicos, de famílias tranquilas que, a cada manhã, posicionam seus pais simpáticos para a hora do café, de docerias pintadas com luzes fortes, de adornos típicos dos anos 1950.

Antes, portanto, há a ambientação, o terreno que nos confronta, que nos tira do lugar e, no clima cômico proposto, não raro reproduz o inexistente. Em certa medida, só é possível assimilar os clichês visuais da vida americana graças à comédia que os embala; do contrário, ficaria apenas o que reflete o ódio: algo violento, até irracional.

O filme concede bondade em excesso à protagonista. Como alguém já disse, este não é um rape and revenge convencional. Em certo ponto, Cassandra decide voltar atrás e deixar de lado as noites nas quais fingia embriaguez para confrontar homens em plena alcova. As expressões de medo do sexo oposto, finda a interpretação, são impagáveis, representam a vitória sobre os abusadores, homens – não todos, claro – de calças apertadas e saliências vistas enquanto dançam e festejam na cena de abertura.

Por trás do colorido há algo errático, como a cusparada de Cassandra na bebida de um pretendente que, tão interessado nessa bela moça, toma o líquido até o copo secar. Por sinal, é este o momento mais erótico, talvez o único, desse filme curioso: a mulher encara o futuro namorado submisso, a consumir seus fluídos antes de tê-la nos braços.

Os detalhes são caros. Na despedida de solteiro que põe fim à aguardada vingança, a moça coloca bebida na boca dos rapazes sedentos por sexo, animais ajoelhados à espera da “doutora” de cabelos coloridos com o remédio que, sabemos, serve apenas ao desequilíbrio. O líquido é visto escorrendo pelos lábios; toca-se a boca de uma boneca inflável.

O filme de Fennell proporciona mal-estar pelo detalhe e pelas intenções nem sempre concretizadas. Quando a mulher – paga para estar ali, creem eles – oferece bebida na boca, os homens prestam-se à submissão: elas servem, na lógica invertida, para mandar, algemar, embriagar e, claro, dar prazer. Em qualquer caso, são produtos.

Cassandra não quer matar homens. Antes, quer mostrar que o sistema no qual eles semeiam suas vantagens e crimes não resiste à mulher que foge ao papel esperado. Para um dos homens que quer arrastá-la para casa, a protagonista fala sobre moças que levam tesouras na bolsa. É o suficiente para escancarar o pavor que o ataca.

(Promising Young Woman, Emerald Fennell, 2020)

Nota: ★★★☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Uma Noite em Miami, de Regina King

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