“Maggio morrera para a ressurreição de Frank”

Imerso nas trevas, ele acreditou nas próprias entranhas. E foi aí que ele encontrou Angelo Maggio. Em 1952, ele leu A Um Passo da Eternidade, o romance épico de James Jones sobre a vida na caserna antes de Pearl Harbor, e reconheceu-se no recruta nanico que não era esparro de ninguém, que preferiria ser espancado até morrer a desistir. “Eu era o Maggio”, diria ele. “Não importava quem dissesse o quê, eu iria provar, não importava quantos testes eu tivesse que fazer, não importava o dinheiro, eu iria ser o Maggio mesmo que fosse a última coisa que fizesse.” A Columbia Pictures detinha os direitos, então ele deu início à sua campanha. Ligou para o chefe do estúdio e notório patife Harry Cohn, a quem conhecia bem. “Harry”, disse ele, “você tem uma coisa que eu quero.” “O que é? Interpretar Deus?” Frank implorou, mas Cohn se recusou a deixá-lo fazer Maggio: “Escute, Frank, este é um papel para um ator. Você é só um merda de um dançarino”. Frank não recuou, ofereceu-se para trabalhar de graça, enviou uma montoeira de telegramas para Cohn, assinando-os todos como “Maggio”. Estava na África com Ava [Gardner] quando Cohn concordou em deixá-lo fazer um teste de filmagem. Frank pagou a própria passagem de volta para Hollywood, improvisou a cena do bar em que joga azeitonas que nem dados, voltou para a África e ficou esperando. Cohn regateou. Frank, que vinha ganhando US$150.000 por filme, iria ganhar US$8.000 para fazer o papel de Maggio. As filmagens começaram no Havaí na primavera de 1953. O astro do filme, Burt Lancaster, observou-o colocar toda sua essência no papel: “O fervor dele, a raiva e a amargura, tudo tinha a ver com o personagem de Maggio, mas também com aquilo que ele passara nos últimos anos: uma sensação de derrota e o mundo inteiro desmoronando em cima dele, seu casamento com Ava aos frangalhos… Dava para ver que ele era um homenzinho irado mas que também era, ao mesmo tempo, um bom ser humano”.

Seu discurso ao receber o Oscar começou assim: “Ahn”. Ficou aturdido a esse ponto. Em seguida, a recriminação nervosa: “Que começo inteligente!” Depois, o alvoroço refinado e vulnerável: “Senhoras e senhores, estou profundamente emocionado e feliz. E realmente não sei o que dizer… por que isto é uma coisa totalmente nova, sabe… comparada a cantar e dançar. E estou muito satisfeito e se eu for agradecer a todos, vai ser um rol inteiro, portanto é melhor nem começar. Gostaria de dizer, entretanto, que há um bando de gente cantando aqui hoje, mas ninguém me pediu nada”. Como sempre, ele preferiria ter cantado. Talvez não naquela noite. Mais tarde, levou a pequena Nancy e Frankie para a casa da mãe deles e depois ficou passeando pelas ruas desertas de Beverly Hills com a estatueta – “só eu e o Oscar” – preparando-se para o resto de sua vida, que iria se alçar para além do paraíso. Jamais tornaria a ser visto como um perdedor. “Mostrei àqueles sacanas!” contou a todos. “Eu nunca cheguei ao fim!” Maggio morrera para a ressurreição de Frank.

Bill Zehme, escritor, em Frank Sinatra – A Arte de Viver (Ediouro; pgs. 229-231). Acima, Sinatra nos bastidores de A Um Passo da Eternidade; abaixo, com seu Oscar e ao lado da atriz Donna Reed, melhor atriz coadjuvante pelo mesmo filme, na cerimônia de 1954.

Veja também:
Frank Sinatra, à prova do tempo

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