Domando o Destino, de Chloé Zhao

À aspereza do caubói entre cavalos ou no brete a diretora Chloé Zhao responde com sensibilidade. É assim o filme todo: a personagem insiste em retornar aos saltos, aos rodeios, e a cineasta segura-a na estranha zona em que não pode mudar, tampouco ser o que sempre foi. O drama está posto: o duelo do homem contra sua natureza.

Perceptível, desde o início, que Domando o Destino é feito de pessoas representando a si mesmas, o que dá à obra contornos ainda mais profundos. Brady Jandreau é Brady Blackburn, que machucou a cabeça e teve sequelas graves após uma queda em rodeio; um de seus amigos, Lane Scott, também é ele mesmo, em clínica de reabilitação.

Os caubóis estão presos às suas próprias condições: não podem assumir outra forma porque desconhecem o que há além; dependem da vastidão da natureza que os consome, que os serve, e da memória de seus dias de glória nas arenas, dos vídeos na internet.

O filme acertadamente não oferece saída: qualquer recuo é temporário, qualquer possibilidade de compreender o que passa na cabeça de Brady desfaz-se, por exemplo, nos momentos em que ele toca a cela, ou quando chega a se aproximar de uma competição para retornar ao lombo dos grandes animais agitados entre grades.

A história de Brady tem início com um sonho. A natureza ataca-o com seu misto de beleza e perigo; ele enxerga as partes do cavalo, seus músculos, sua pata sobre a terra. Acorda assustado após essas imagens estranhas. Por que logo ele teria medo do animal? O subconsciente de Brady indica a relação conflituosa que permeia o filme todo.

De pé, em ambiente à meia-luz, retira os grampos que prendem o curativo à sua cabeça. Descobrimos sua enorme cicatriz, seu rompimento. Há sangue entre os grampos. Todos esses detalhes são caros ao cinema de Chloé Zhao: é necessário compreender o que significa a carne cortada, aqueles mesmos sinais dados pelo corpo.

O contraponto à cicatriz é a tatuagem, o corte na pele como algo programado, símbolo que nos leva a pensar no que move a vida desses caubóis, desses meninos que encontram na arena, em questão de segundos, a fama ou a queda. Alguns cruzam o caminho de Brady, sorridentes, brincalhões, alimentados pelo desejo de domar o monstro.

É difícil compreender o que há por trás desse prazer. Em cena importante, o protagonista luta com um colega. O que parece brincadeira dá lugar às intenções de domar o outro, homem ou bicho, seu instinto irrefreável, essa maneira de se comunicar que passa aqui obrigatoriamente pelos sinais do corpo, pelo embate, pela dor e, a depender do caso, pela vitória.

Ao encarar o horizonte e as pradarias, Brady talvez esteja em confronto com Deus. Uma de suas mãos não responde mais aos seus sinais. Fecha e não abre. Seus músculos não estão completamente sob seu controle, o que lhe retira a chance de fazer o que ama; é preciso dos punhos, da mão, de toda força para puxar a corda e se manter sobre o animal.

A cineasta pede apenas que seu ator mova-se pelos locais e com pessoas que conhece. Jandreau é o rapaz ingênuo de um local distante, para muitos um “caipira”, alguém cuja humanidade é óbvia, que se ressente de não poder fazer as coisas que sempre fez e que precisa estar à margem, trabalhando em supermercado.

Quando chora, dirigindo sua caminhonete pela estrada, há apenas ele e a câmera. Faz todo o sentido: as lágrimas só podem surgir em seu isolamento, instantes em que se debate com a própria consciência. Jandreau vence-nos com sua simplicidade, sua maneira de tentar combater, em vão, os sentimentos que lhe tiram o sono, o animal que lhe afronta.

(The Rider, Chloé Zhao, 2017)

Nota: ★★★☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista; conheça seu trabalho

Veja também:
The Souvenir, de Joanna Hogg

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