Algumas observações de Clint Eastwood sobre Os Imperdoáveis

(…) parece-me que o filme trata da violência e suas consequências muito mais do que os que fiz antes. No passado, havia muitas pessoas mortas gratuitamente nos meus filmes, e o que eu gostei nessa história é que as pessoas não são mortas e atos de violência não são perpetrados sem que haja certas consequências. Esse é um problema que achei importante falar hoje, toma proporções que não tinha no passado, mesmo que sempre esteve presente ao longo dos tempos.

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O tema da violência já estava presente no roteiro, assim como sua repercussão nos personagens, sejam eles as vítimas ou os perpetradores. Esse tema é interessante em um faroeste porque as histórias do ocidente sempre foram construídas em torno do comportamento violento, uma fronteira da violência no homem. E este questionou certas coisas, notadamente no que se refere ao tema da justiça. Você poderia pensar que se o personagem Little Bill [Gene Hackman] tivesse feito justiça a essas mulheres [as prostitutas que contratam William Munny] no início, isso teria mudado toda a história. E sua falta de preocupação diante de um ato de violência, ou mesmo sua indiferença a ele, na verdade põe a história em movimento – direto para sua própria morte.

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O filme de Ford [Paixão dos Fortes] tem várias cenas noturnas, certo. Talvez eu estivesse inconscientemente motivado por uma ideia próxima à de Ford. Tentei iluminar meu filme – ou melhor, pedi a Jack Green [diretor de fotografia] para iluminá-lo – como um filme preto e branco. Os figurinos e o cenário também foram concebidos em função desse esquema de iluminação particular, como um [filme] em preto e branco.

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Tento me concentrar acima de tudo na história, porque é aí que está tudo amarrado, é o “kernel”, por assim dizer. A seguir procuro ver como a imagem pode melhor corresponder à história, de que forma quero que a história apareça, com que emoções, com que sonoridades. Em Os Imperdoáveis, existe essa tempestade que se torna quase um personagem em si, um fator determinante: os três protagonistas, à medida que se aproximam, parecem trazer a tempestade junto com eles. Esse tipo de coisa não está escrito no roteiro, é inserido mais tarde. Mas a base do drama, a questão da justiça e da violência, tudo isso já estava presente no roteiro.

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Acho que é mais uma fábula, mas uma fábula que desmitificaria o Ocidente, de certa forma, ao apelar para outros elementos que não o ocidental clássico. Como, por exemplo, o fato de que não é tão fácil fazer as coisas, que a mira das pessoas não é tão precisa, que as armas nem sempre funcionam toda vez que são disparadas da maneira que deveriam. Não sei se essa é a verdade sobre o Ocidente, mas o filme provavelmente aborda isso. Estranhamente, contém duas histórias que coexistem em paralelo, a do jornalista que quer publicar a lenda do Ocidente e a que atravessa o filme e a contradiz totalmente. O encontro dessas duas histórias foi o que mais gostei no roteiro. Todo mundo muda no curso da história, todo mundo começa em um lugar e termina em outro, assim como na vida real, todos os dias aprendemos algo que transforma nossa maneira de ver as coisas. Todos esses personagens aprendem uma lição de forma trágica, pelo menos para a maioria deles. E com a tragédia todos podem aprender alguma coisa.

Clint Eastwood, cineasta, em entrevista à revista Cahiers du Cinéma (número 460, outubro de 1992; reproduzida em inglês no site Cinephilia & Beyond, do qual os trechos foram retirados). Acima, Clint dirige; abaixo, atua.

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