Inimigos, uma História de Amor, de Paul Mazursky

A primeira mulher de Herman (Ron Silver) que conhecemos é a polonesa submissa, sua criada antes da guerra, sua esposa depois dela, Yadwiga (Malgorzata Zajaczkowska). Cuida do homem como uma mãe: dá-lhe banho, faz suas comidas favoritas e quer se converter ao judaísmo, o que chama a atenção dos mais velhos da comunidade judaica.

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A amante é forte mas propensa à tragédia, e ameaça se suicidar ao longo de Inimigos, uma História de Amor, um dos filmes mais consistentes de Paul Mazursky. Judia como Herman, ela passou pelos campos de concentração, tem um número tatuado no braço e se casou com outro homem por conveniência. É a atraente Masha (Lena Olin).

Há também a esposa anterior à guerra, alguém que Herman acreditava ter morrido. Quando Tamara (Anjelica Huston) volta, na Nova York do fim dos anos 1940, percebemos que o protagonista – esse estranho herói atingido por aquilo que não quer ser, ou seja, ele próprio – está condenado a migrar entre estados e fantasmas, passado e presente.

Herman vive para percorrer um caminho vazio, o único que resta aos sobreviventes, aos assombrados pelos sinais e horrores do Holocausto. Não pode mais ter a vida que tinha, não pode ter qualquer vida. Para tanto, evitando se anular, vive várias enquanto perde em todas as frentes que ataca – enquanto lhe resta ser ghost writer, alguém à sombra.

Para Yadwiga, que ajudou a salvá-lo, ele diz que faz viagens e vende livros. É a desculpa para se encontrar com Masha, a quem não cabe apenas o sexo de ocasião. Quando Herman e a amante estão juntos, assistimos à química que tira qualquer homem do chão, compreendemos o que a dama atraente pode fazer a alguém frágil como ele.

A soma da antiga mulher às relações insustentáveis quase leva o filme de Mazursky à comédia de desencontros e enganações. “Mazursky tira o tapete debaixo dos nossos pés, e caímos nas malhas da farsa”, observa Pauline Kael. Enquanto a nova esposa não pode deixá-lo e a amante cobra presença, a antiga mulher é uma espécie de consciência ou lembrança do que ele foi, a fazer apontamentos sobre o que se tornou.

Pressionado pelas mulheres e cercado pela citada farsa, o protagonista trepidante não consegue desaparecer na normalidade da vida cotidiana, entre banhistas e brinquedos gigantes de Coney Island. Herman insiste em viver diferentes vidas, com diferentes arranjos, em viagens e jantares – sempre deixando claro seu ceticismo em relação ao mundo.

Os “inimigos” são todos: a personagem central, suas mulheres, suas amantes, seus vizinhos idosos e enxeridos, seus patrões, seus companheiros de oração. Não há promessa que resista à verdade. As novas possibilidades, na terra das possibilidades, deixam de fazer sentido – sem que Herman, de alcova em alcova, diga-nos muito a respeito.

Ao não procurar definição fácil para o herói e sua história, Mazursky, a partir da obra de Isaac Bashevis Singer, torna Herman uma vítima dessa sociedade que encontra outros problemas para se ancorar, em apartamentos apertados, na América simples de pessoas que fogem para o campo ou para o parque de diversões para matar o tempo.

Herman vive a antiaventura. E quando percebe que precisa escolher uma das três mulheres, escolhe aquela que ainda lhe gera os melhores prazeres físicos. Chegam, desesperados, a jurar o suicídio compartilhado, com boa dose de medicamentos, o que logo, em questão de instantes, deixa de fazer sentido para o protagonista. A mentira que a companheira confessa ter praticado coloca-o outra vez no domínio da realidade.

Ele não foi feito para nenhuma das mulheres que o cercam – sobretudo para Masha. Tinha todas porque não podia ter uma só, ou ser uma só pessoa. O escritor judeu descobre que não pode viver nem morrer ali. Nem precisa nos contar. Continuará a existir por meio de cartas, do dinheiro que envia à filha pequena, de algum lugar que nunca conheceremos.

(Enemies: A Love Story, Paul Mazursky, 1989)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Uma Mulher Descasada, de Paul Mazursky

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