Uma Mulher Descasada, de Paul Mazursky

A mulher moderna do fim dos anos 1970 ficou um pouco mais chata, mais limitada, sem parecer conservadora por inteiro. Após se separar do marido, seu único homem em mais de 15 anos, não sabe o que fazer e demora para se envolver de novo. Como dizem suas amigas, as mulheres desse tempo não transmitem mais a força de Bette Davis ou Joan Crawford. Nem Jane Fonda, nem Ellen Burstyn. Muito menos Jill Clayburgh.

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Na pele de Erica, ela representa a mulher que acredita ter atingido a estabilidade: trabalha em uma galeria de arte mas não é artista; vive rodeada de pessoas descoladas apesar do marido visivelmente quadrado, no ramo de ações da Bolsa de Valores; tem uma filha de 15 anos que não quer se casar e assiste aos filmes de Lina Wertmüller.

O drama de Erica, em Uma Mulher Descasada, é tentar e não conseguir se enquadrar à sociedade que ainda arrisca o liberalismo das festinhas de artistas, à qual, como brincam as mesmas amigas no balcão do bar, falta uma guerra ou uma crise. À medida que a América acerta seus ponteiros, fica mais difícil se entregar às possibilidades. Mulheres como Erica viram-se apaixonadas pelo funcionário engomadinho dos grandes escritórios.

O que explica a dificuldade de se relacionar com o artista quando este aparece – e com ele deixar a cidade que a contempla, com suas fraquezas e indecisões, mas na qual, entre a multidão, pode ser ela própria. Eis o paradoxo do cosmopolita: ele pode fingir ser qualquer coisa e ser quem ele realmente é, sem ser julgado a todo o momento.

O diretor Paul Mazursky não permite julgamentos fáceis. Ele sabe como ceder de Erica apenas o necessário. Percebemos seu lado sonhador, de quem acredita ter conquistado tudo, a quem o marido aparentemente perfeito aguarda em casa, após ela sair e beber com as amigas. De manhã, apenas de calcinha, dança pelos cômodos – ou melhor, flutua.

A pancada é esperada: em um dia como qualquer outro, após almoçar com o marido, o mesmo lhe avisa que tem um caso com uma mulher mais nova e está apaixonado. Pouco sabemos sobre essa jovem, e nem saberemos. Pouco sabemos sobre o marido, interpretado por Michael Murphy. O que realmente importa a Mazursky é Erica.

Sua vida perde o sentido de repente. Acompanhamos suas dores, indecisões, seus momentos de fúria quando começa a jogar fora os objetos que remetem ao ex, incluindo a aliança de casada – sob a trilha sonora excessiva de Bill Conti, elemento que mais afasta do que convida a esse drama com poucos momentos realmente inspirados.

A direção de Mazursky tem leveza. Nova York torna-se agradável, até apaixonante. O clima antecipa a década dos “vencedores” de terno caro e excesso de laquê. A caretice típica à era Reagan desembocaria em algo como Uma Secretária de Futuro, para ficar em um exemplo; a suposta sofisticação que esses filmes exploram não resiste.

De qualquer forma, Mazursky tem o artifício perfeito para que as plateias aceitem Erica e esse cinema de boas intenções: sua protagonista – com a qual, à época, muitas mulheres choraram e se viram no espelho – transcende e muito a carne. Para ela, o sexo pode ser algo passageiro, e pode ser feito até com o mais escroto dos homens. Ainda assim, a câmera oferece-nos o melhor dela apenas quando suas paixões estão em jogo.

O relacionamento com o pintor abstrato interpretado por Alan Bates não poderia ter futuro. Ele pede muito: uma viagem, uma saída, talvez a vida longe da metrópole. O amante tem aparência rústica e lado terno, fala o inesperado e mostra ter o espírito livre que a companheira, ao que parece, não consegue seguir, e por isso destoam.

Erica tampouco pode voltar com o ex-marido, ainda que, no fundo, sabemos que nasceu àquele homem que “escorregou” e propôs retorno após alguns meses de aventura. Suas expressões enquanto o observa revelam uma atriz mergulhada na personagem. Não se pode negar: Clayburgh é a escolha perfeita para viver essa mulher conflituosa.

(An Unmarried Woman, Paul Mazursky, 1978)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
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