A zombaria narrativa do Monty Python

Analisar os filmes do grupo humorístico britânico Monty Python é tentar encontrar sentido no caos, no aparente vale-tudo de situações e personagens que vivem para nos lembrar o pior dos seres humanos em capítulos e mais capítulos de comédia ininterrupta, anarquia obsessiva, passagens que surpreendem com idiotia generalizada.

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Momento em que o humor inteligente toca a imundice, ao embalo de um suposto “passe livre”, para que seus membros – Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones, Michael Palin – façam o que desejam. Em meio ao que há de mais caótico, a tanta traquinagem, não nos resta nada além do riso, ou do rubor.

A comédia tem seus efeitos contrários: não raro revela mais sobre nós do que o drama. No caso de Monty Python, a ideia é sempre encarar o homem em algum contexto histórico, zombar de seus ritos, costumes e sociedades que, com todos seus exageros, ainda refletem um pouco do fanatismo vivo e do sentimento de determinados povos e religiões.

No entretenimento que inclui uma bruxa prestes a ser queimada em Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, ou o apedrejamento e a batalha do coliseu em A Vida de Brian, seus participantes e espectadores estão sempre se deliciando com a possibilidade de colocar para fora suas vontades, seu primitivismo, com olhos flamejantes à vítima da vez.

Os comediantes revelam um passado inglório agora digno de riso, no qual não se nega o real. Suas inversões miram o espelho: divertimo-nos com aquilo porque acreditamos se tratar de pura brincadeira. O que há de pior nos homens só pode ser “aceito” quando visto sob as pinceladas da comédia. Outro passe livre é dado a nós; eis o pacto da ficção.

Quando as personagens resolvem cantar, elevam-se o falso espírito da bondade, da felicidade, a brincadeira rabugenta que outra vez nos coloca nos domínios do cinema indolor. Reino das figuras falsas, das fugas fáceis, dos saltos e flechadas sem efeito, das meninas ávidas pelo cavaleiro que reluta a tomá-las nos braços enquanto persegue o objeto sacro.

O que há de mais ousado nas comédias de Monty Python, contudo, diz respeito à subversão narrativa – ou, mais apropriado, sua zombaria. As intromissões da animação e de um suposto historiador voltado à câmera, logo assassinado por um cavaleiro em Em Busca do Cálice Sagrado, são exemplos da falta de compromisso com a linearidade.

Claro que não somos inocentes para esperar por algo regular, aos moldes do cinema narrativo convencional e suas possibilidades de ilusão. Os filmes do Monty Python são compostos por esquetes ou episódios interligados pelo menor fio narrativo, como, por exemplo, a busca do tal cálice sagrado ou as descobertas e a jornada de Brian (Graham Chapman).

As demarcações permitem personagens distintas, atores que se repetem, emaranhado de passagens nas quais nada precisa fazer sentido. São criações espontâneas e ligeiras como as dos Irmãos Marx, inclinadas à violência, à miséria e ao fracasso como as figuras patéticas de O Incrível Exército de Brancaleone e sua inferior continuação.

Quando a polícia surge em cena para investigar a morte do suposto historiador, ao longo de Em Busca do Cálice Sagrado, anula-se o filme de época (a ficção assumida) com os sinais da atualidade (o documentário). A ideia rompe a narrativa que possibilita a representação aceitável – efeito equiparado às piscadelas de comediantes como Stan Laurel, Oliver Hardy ou Groucho Marx diretas à tela (ainda que com maior intensidade).

Está em jogo o descortinar da ficção e de suas possibilidades. A comédia ri das imperfeições e as amplia, toma determinadas particularidades – como cavalgar sem cavalo e gritar “Ni” – e as prolonga ao insuportável. Para muitos, inegável genialidade; para outros, apenas algo original. Em qualquer um dos grupos, não se pode negar a ousadia.

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