Por que Antonioni fez O Deserto Vermelho em cores

Até agora fiz nove filmes, mais um episódio: Tentativa de Suicídio (Tentato suicidio) de Amores na Cidade (Amore in città, 1953). Vamos dizer, dez filmes em quinze anos. É muito? É pouco?

 

Estou fazendo essa conta para entender por que, justamente agora, senti a necessidade de abandonar o preto e branco, isto é, um cinema que até pouco tempo atrás, eu considerava que era o mais adequado à minha mentalidade e ao meu modo de contar os fatos da vida. Com O Deserto Vermelho (Il deserto rosso, 1964) nunca tive dúvidas sobre a necessidade de usar a cor. De resto, não me parece uma coincidência que outros autores de cinema que até agora tinham sido fiéis ao preto e branco, como Bergman, Dreyer, Fellini e Resnais, tenham sentido essa mesma necessidade da cor, e todos quase ao mesmo tempo. Para mim, a razão é esta: a cor tem, na vida moderna, um significado e uma função que não tinha no passado… Estou convencido que, daqui a pouco tempo, o preto e branco se tornará realmente material de museu. 

 

Esse também é meu filme menos autobiográfico. É o filme para o qual mais mantive o olhar voltado para o lado de fora. Contei uma história como se eu a visse acontecer sob meus olhos. Se ainda existe um pouco de autobiografia, é exatamente na cor que se pode encontrá-la. As cores sempre me entusiasmaram. Vejo sempre em cores. Quero dizer: me dou conta de que elas existem, sempre. Eu sonho, as raras vezes que sonho, em cores.

 

Nos filmes, naturalmente, tentei pôr algumas cores que satisfizessem um gosto meu. Não podia ser de outra maneira. Infelizmente, nem sempre consegui. Com a cor, as dificuldades triplicaram em relação ao preto e branco.

 

No entanto, manusear a cor é uma experiência entusiasmante. Basta se esquecer logo dela e nunca perder de vista a história. Também estou convencido de que o melhor resultado é obtido se o público não percebe mais a cor como um fato independente, mas aceita-a como substância figurativa da própria história.

Michelangelo Antonioni, cineasta, em artigo publicado em L’Europeo (“O meu deserto”, 16 de agosto de 1964) e republicado, com tradução de Aline Leal, no catálogo da mostra Aventura Antonioni (CCBB, 2017; pgs. 353 e 354). Acima e abaixo, Monica Vitti em cenas de O Deserto Vermelho.

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Veja também:
O Som do Silêncio, de Darius Marder

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