Ontem, Hoje e Amanhã, de Vittorio De Sica

Por força do mito, algumas imagens ficaram mais famosas que filmes aos quais pertencem. É o caso de Marilyn Monroe com o vestido levado pelo vento, sobre o respirador do metrô – recriado em estúdio – em O Pecado Mora ao Lado. Caso, também, de Sophia Loren fazendo striptease a um infantilizado Marcello Mastroianni em Ontem, Hoje e Amanhã.

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Ironia das ironias: ficou a imagem, a da mulher exuberante, uma das mais belas do mundo. No filme, o sexo que o ato prenuncia não se realiza: a prostituta e seu cliente preferencial – o único que surge ao longo do terceiro capítulo – segue à risca a promessa de castidade por uma semana. Ela volta a vestir as roupas, lamenta, convida-o para orar. Ambos ficam de joelhos.

Cada capítulo do premiado filme de Vittorio De Sica tem o nome das personagens de Loren – Adelina, Anna e Mara – e cada um corresponde a um dos tempos indicados pelo título – ontem, hoje e amanhã. Nesse sentido, a prostituta que encerra a obra com a interrupção do sexo e do sonho (qualquer homem sonharia com Loren) prenuncia o conservadorismo.

A igreja resiste. O menino do apartamento ao lado, interpretado por Gianni Ridolfi, segue seu caminho para se tornar padre. Ficamos com a imagem do boboca Mastroianni, aos mandos do pai ao telefone, com aquela bela italiana com a qual, por imposição divina, nada pode fazer. Um dia como qualquer outro nessa Itália de gente que fala aos gritos.

O primeiro capítulo, escrito por Eduardo De Filippo, pertence mesmo ao passado que De Sica parece repetir no futuro. Alguns aspectos do “ontem” são cedidos ao “amanhã”, talvez com a esperança de que a velha Itália dos bairros alegres, dos pequenos crimes, dos crianças que cantam em marcha retorne – contra o amargor e a escuridão do tempo corrente, o “hoje”.

Há quem veja, na parte do meio, algo à Antonioni, o que se convencionou chamar de “cotidiano chato”, de “tempos mortos”, o que não combina com a comédia à maneira clássica da qual o expansivo De Sica tanto se serviu – logo ele, um dos realizadores mais importantes do período neorrealista, com Ladrões de Bicicleta à frente.

Da primeira à segunda parte, fica o choque. De Filippo dá lugar a Cesare Zavattini, que retorna no terceiro capítulo. Como Adelina, Loren é a vendedora de cigarros que precisa engravidar para não terminar presa; quando seu marido para de “funcionar”, não há outro caminho senão o do cárcere, ao lado de outras mulheres, fortes como ela.

Em seguida, é Anna, mulher rica, casada com um homem poderoso, de quem sabemos o suficiente para perceber que vive – em único dia, poucas horas – uma aventura com um amante de seu passado, de novo interpretado por Mastroianni. Duas pessoas diferentes que, ao que tudo indica, já se amaram e agora não sabem o que fazer com o “hoje”.

A mulher rica, a bordo de seu potente rolls-royce, insiste em bater na traseira de outros veículos, mas nunca o suficiente para causar acidentes. Quando o amante torna-se o condutor, finalmente vem a batida. A partir da obra de Alberto Moravia, esse capítulo – para além da ideia de que as personagens apenas giram em falso, sem o que fazer, sem um local para parar – aborda o desejo da dama burguesa pelo motor, pela velocidade, pelo perigo, ainda que não tenha coragem de concluir o acidente que tantas vezes se anuncia.

Após a batida, resta ao amante a estrada; à mulher, a carona de outro homem, outro burguês em outro carro potente. Dela, apenas um “tchau” rápido pelo som do vento, ao sabor do corte desse filme cujas partes apenas se unem pelas diferenças, o que nos leva a pensar em De Sica como um realizador versátil, a serviço de um produtor e de sua estrela.

A química de Loren e Mastroianni dá-se pelas diferenças. Casamento raro. Ela é a bela corpulenta, mãe absoluta, sexualizada; ele, o impotente, o intelectual a pé ou o rapaz infantil que, para viver prazeres proibidos, corre aos braços da prostituta. Seus gritinhos à cama, na famosa cena do strip, é o que há de mais engraçado em um filme não mais que divertido.

(Ieri oggi domani, Vittorio De Sica, 1963)

Nota: ★★★☆☆

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2 comentários sobre “Ontem, Hoje e Amanhã, de Vittorio De Sica

  1. Impressionante Palavras de Cinema !! Seu conhecimento é fora de série ! Vc tem minha admiração, e, imagino que de todos que o acompanham, total, irrestrita , pra sempre !! Demaisss …demaisss…parabéns por essa mente privilegiada !!

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