Sertânia, de Geraldo Sarno

O sertão estoura em branco. O homem – cangaceiro, guerrilheiro, antes chamado Antão, depois batizado de Jararaca e Gavião – revê a própria vida enquanto se aproxima da morte. Rasteja como réptil até um tronco seco para se escorar; folhas recaem à face; encara o sol, o passado, os conflitos que o colocaram naquela situação.

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O visual de Sertânia, de Geraldo Sarno, responde à visão do homem agonizante, a primeira das contradições curiosas e acertadas desse belo filme brasileiro: em excesso, o branco incomoda, não alivia; rumo à morte, o protagonista desce ao espaço espiritual que pode ser considerado a ante-sala do inferno e, ao contrário do que se pensa, continua branco.

Rever a trajetória custa esforço. O branco invasivo quase sempre impede, espalha-se sobre a tela, sobre os corpos, golpeia a câmera. Sarno conduz essa experimentação com inegável raivosidade, confrontação ao cinema “educado” sobre determinada época e país, sob as convenções de gênero, algo como seu Coronel Delmiro Gouveia.

Essa experimentação, em momentos, leva ao fazer cinematográfico, ao cineasta que permite desarmar a ficção e voltar a câmera à própria equipe, ao ator (Júlio Adrião) que não consegue atirar com uma arma e, de repente, sai da personagem. A transparência é quebrada: os momentos finais do cangaceiro explicitam o filme, a recriação clara.

Nesse sentido, Sertânia é sobre o próprio cinema. Mais ainda: é sobre confrontar o cinema esperado sobre cangaceiros em luta com os militares, sobre a vida no sertão. Em algum limite, o anti-filme de sertão, feito com frieza, não mais dependente do calor insuportável, da resistência heroica dos invasores com balas ao redor do corpo, a cavalo.

Antão (Vertin Moura) tem no desfecho uma estranha poesia dos mortos, a ressurreição da memória, a súplica de quem precisa verbalizar o que viveu para fazer a passagem em paz. O guerreiro assume-se pequeno, toca o buraco da bala em seu tronco, encara o líder de seu grupo – antes companheiro, depois algoz, talvez seu próprio pai, Jesuíno (Adrião).

O filho retorna ao sertão para seu acerto de contas com o homem mais velho, matador experiente. Precisam se encontrar. Quando criança, ele perguntava para a mãe, incessantemente, se o pai estava morto. Não havia resposta. O pai é líder do bando que invade cidades e cobra para matar ou apenas não causar problemas.

Jesuíno aceita vender segurança aos poderosos em troca da morte dos retirantes que se aglomeram em uma praça, a certa altura. O destino do povo miserável opõe o jovem ao seu líder, o filho ao pai. Quando menino, Antão sentiu na pele o que é ser retirante, o que é estar sob forças militares, que o enviaram para a cidade na companhia da mãe.

O filho trágico retorna para ser parte dessa história, ao encontro de quem estranhamente o completa. No espaço espiritual, pergunta pelo pai e reencontra a mãe. A cultura afro corre ao fundo; por ali, um Delmiro Gouveia de palavras firmes, político em terno branco, prevê que um dia ele e Antão estarão juntos no mesmo lugar, em um filme.

O cinema dos mortos para o país sem rumo, entregue à força dos que podem comprar e dos que estão dispostos a se vender. Morto, Antão tem a cabeça servida – de novo, na história que não cansa de se repetir – ao povo pobre de uma festa caipira, nos tempos atuais. “Viva o Brasil”, repete a cantora, aos olhos das pessoas, gente do sertão.

(Idem, Geraldo Sarno, 2019)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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