Edward Mãos de Tesoura, de Tim Burton

A sociedade colorida do subúrbio em questão primeiro se encanta com o deslocado e silencioso Edward. Com o rosto cheio de cicatrizes, mãos de tesoura, cabelos bagunçados, torna-se a sensação da vizinhança aparentemente acolhedora, sob as luzes do Natal, o que nos faz pensar na relação inicial do índio com o homem branco.

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Algo nocivo pouco a pouco ganha espaço na fábula de Tim Burton, com roteiro de Caroline Thompson: os selvagens sempre são os outros. O visitante dotado de garras nas mãos é a figura exótica cultivada nos jardins verdes em que todos se encontram para o típico churrasco entre amigos, com peruas maquiadas e velhos preconceituosos.

A casa de Edward – castelo escuro no alto do morro, nos limites de um jardim que poucos têm coragem de cruzar – pode ser vista a todo o momento. Em Edward Mãos de Tesoura, o monumento está perto e distante ao mesmo tempo, perfeitamente à altura dessa mesma sociedade que, por conveniência, prefere fingir que ele não existe.

Interpretado por Johnny Depp, Edward é um robô dotado de coração, pernas e braços, todas as demais partes menos as mãos. No dia em que as receberia, seu pai e criador (Vincent Price) sofreu um infarto – obra do destino implacável. O órfão solitário tem à frente um mundo todo para tentar tocar, uma face para jorrar sangue. Na linha que quase o leva à vida humana, expressa-se com carinho e quase nunca consegue odiar alguém.

Retornamos à ideia de Rousseau: o homem é bom, é a sociedade que o corrompe. Talvez. Nesse caso, a filosofia serve bem à fábula: mesmo que os ecos da realidade estejam ali, inegavelmente vemos tudo pelo prisma da fantasia e sua maneira de unir pontas até então inconciliáveis. Queremos acreditar que Edward, em tons escuros à contramão das cores falsas, seja mesmo bom demais, para além da lata, do couro.

Burton faz um filme interessante sobre a dificuldade de tocar, e sobre o preço que pagamos por isso. As mãos são as primeiras peças da metáfora: elas cortam quando se toca o que nunca se tocou, quando se resolve – pela força dos outros também, é verdade – descer a montanha e se aventurar no reino dos homens, feito por homens, às suas leis.

Edward escapa à mecanização da qual é fruto. Sabemos, através de suas lembranças, que nasceu de uma linha de produção. Vemos o que ele mesmo quando ainda não era nascido; a narrativa reproduz a memória dos outros, provavelmente a história de sua vida contada por seu pai-criador. Da máquina sai o biscoito em forma de coração, a ideia de levar o órgão vital ao novo e jovem Frankenstein que está sendo gestado.

Quer dizer, Edward é, indiretamente, filho da produção em cadeia, da repetição, dos objetos que brotam da ponta da esteira. Contradição curiosa: Edward é a extensão do objeto que melhor define o capitalismo, imortalizado por Chaplin em Tempos Modernos.

O protagonista, por sinal, só é descoberto quando uma das moradoras da cidade, que vende produtos de beleza de porta em porta, passa por um dia difícil e precisa andar mais para conquistar clientes. Nova cara do capitalismo global, antes da inundação da internet: o vendedor munido de catálogo, com traços de testemunha de Jeová.

Dianne Wiest, irritante de tão agradável, encaixa-se no papel. Como sua filha, Winona Ryder é a princesinha líder de torcida que sai do subúrbio para agarrar atletas louros do time da cidade. Edward precisa se machucar e ser a vítima da vez para que a moça compreenda que aquela “caixa de bombom” nada tem de verdadeira.

Ele será recebido para jantar, depois explorado graças ao seu talento e, ao não se prestar às necessidades dessa mesma sociedade (o sexo, o crime), ocupará o posto de vilão. De suas mãos que machucam sai o talento para criar imagens esculpidas em árvores ou gelo, ou mesmo no corpo dos cães, na cabeça das mulheres.

Em tempos de Natal, ele é o novo perseguido. De volta ao castelo, resta-lhe a cama de palha cercada por recortes, imagens, inclusive a de Nossa Senhora Aparecida. A religião está presente. Na vizinhança, uma fanática adianta-nos a intolerância que, cedo ou tarde, virá à tona. Contra Edward, justamente ele, o mais humano entre todos.

(Edward Scissorhands, Tim Burton, 1990)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A Vastidão da Noite, de Andrew Patterson

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