Duas versões para O Poderoso Chefão – Parte 3

A depender do lugar reservado a Michael Corleone (Al Pacino) no início de O Poderoso Chefão – Parte 3, podemos ter diferentes impressões sobre a personagem. Na posição em que esteve por 30 anos, Michael inicia escrevendo uma carta aos filhos e à família, convite à cerimônia em que receberá um título da Igreja Católica.

A ação, de cara, dá outra forma ao mafioso frio das partes anteriores: agora ele é o homem distante dos negócios escusos, à frente de uma fundação (algo que seu pai, Vito, explica ele, nunca gostou), redimido pela igreja e, sobretudo, pelo próprio tom amaciado conferido pelo tempo. Seu interior – as palavras, a narração – é-nos oferecido.

O ponto de partida diz muito sobre sua transformação, sua velhice, a nova posição como homem apaziguador, com problemas de saúde (diabetes). Um Michael amolecido, pai de dois filhos, intencionado a se ver livre dos ditames da máfia.

Insatisfeito com o Michael nascido dessas escolhas narrativas, Francis Ford Coppola resolve voltar à mesa de edição, 30 anos depois, não para incluir alguma cena que ficou de fora, mas para mudar posições e até subtrair sequências inteiras. O título é outro: O Poderoso Chefão 3 – Desfecho: A Morte de Michael Corleone – como o realizador gostaria que fosse desde o início, não estivessem em seu caminho as imposições do estúdio.

O cineasta abre seu novo terceiro capítulo com Michael em outro local, frente a frente com um cardeal corrupto e prestes a dar um lance típico ao negociador temperado e astuto: comprar uma grande empresa da igreja e se tornar assim um dos homens mais ricos do planeta. A cena também está presente na primeira versão, porém mais à frente.

Do pai amaciado ao negociador – mais empresário de sucesso, menos mafioso à moda antiga – a primeira impressão é a que fica, e em cada versão terá seu peso. De todas as mudanças propostas por Coppola, esta e as do encerramento são as principais e o foco desta análise, que envolve a construção de uma personagem – ou sua reconstrução.

Casa velha, folhas secas

A primeira versão, de 1990, abre com a narração de Michael enquanto escreve a carta-convite e imagens de sua velha casa. Inicia onde termina o filme anterior, no clima outonal, ao aspecto castanho, à impressão do passado perdido da fotografia do mestre Gordon Willis. A casa é o passado do qual o velho homem despregou-se.

Michael, explica sua narração, está em Nova York. As folhas secas ao redor da velha casa representam a passagem, a mudança de estação. A casa está abandonada; o passado de Michael, cremos, também. O lago leva-nos diretamente à lembrança da morte de Fredo (John Cazale), a mando do próprio irmão e chefe da família. Mais um motivo para se distanciar das lembranças, ligadas ao aspecto deteriorado do imóvel.

Em seguida, Michael está na igreja recebendo seu título. Espécie de absolvição, maneira de mostrar que está “limpo” devido à natureza do prêmio. Depois, saberemos, há mais sujeira debaixo do tapete: a Igreja Católica tem dívidas e está envolvida com crimes. Precisa do dinheiro da família Corleone para resolver suas pendengas.

A nova versão começa justamente com essa negociação. Michael sabe onde coloca os pés – diferente do jovem enérgico e disposto a matar os homens que atiraram em seu pai, na primeira parte, ou mesmo do vilão que confronta um senador em sala fechada, na segunda. Acompanhado do advogado, Michael ouve mais do que fala.

Tal abertura mostra que Coppola não tinha a intenção de aliviar seu protagonista por completo: o ponto em que está, por sinal, é o mesmo em que estava seu pai na abertura do primeiro filme: em uma negociação à mesa. A nova cena inicial dita o que restou do mundo da máfia dos Corleone, não exatamente o que não existe mais.

A cena da igreja da versão de 1990 é inteira suprimida. Somos levados diretamente à sequência da festa, na qual novas e importantes personagens começam a surgir, como Vincent (Andy Garcia), Don Altobello (Eli Wallach) e Joey Zasa (Joe Mantegna). Outra vez nos faz retornar ao primeiro filme: à festa de casamento de Connie (Talia Shire).

Ao iniciar com a narração do protagonista, a primeira versão possibilita uma entrada mais palatável aos espectadores que, em 1990, ainda não tinham visto os filmes anteriores e tido contato com suas personagens, mas que precisavam, ao que parece por imposição do estúdio, “entender esse universo”; a segunda versão é mais seca, por sua vez mais reveladora.

Diferentes mortes (contém revelações sobre o encerramento do filme)

Com a filha Mary (Sofia Coppola) morta na escadaria do teatro, na sequência final, a vida de Michael Corleone chega ao fim. Uma trajetória de perdas relacionada às mulheres, uma a cada filme da trilogia – Apollonia (Simonetta Stefanelli), Kay Adams (Diane Keaton) e agora Mary. O chefe da família torna-se morto em vida, o que talvez fizesse da cena seguinte, com ele ainda mais velho, sozinho, rodeado por cães, desnecessária.

Coppola faz duas mudanças significativas no encerramento da nova versão. Na primeira delas, retira duas imagens de flashbacks da dança de Michael com Apollonia e Kay, e mantém apenas a dança com a filha. Essas imagens, como os belos cortes marcados pelo movimento das personagens, através de diferentes épocas, fazem falta.

A morte de Michael, entende o cineasta, não precisa ser literal. Vem a segunda mudança: ao adotar A Morte de Michael Corleone no título, o realizador é irônico ao ocultá-la na tela. A morte assume outro sentido. O desfecho não é mais sobre o homem solitário que tomba em terra seca; é sobre alguém condenado a viver com seus fantasmas.

A música de Pietro Mascagni beira a cilada, golpe baixo para elevar o drama a qualquer custo, em ambas as versões. Por sinal, a música outra vez nos leva aos domínios de um Michael absolvido, diferente de tudo o que representou nos filmes passados.

No saldo final, a nova versão tem mais acertos do que erros. Não retira o filme, contudo, da posição inferior que sempre ocupou na comparação com os dois anteriores, obras-primas inquestionáveis. A terceira parte, com todos os seus tropeços, é um fecho interessante e fiel ao universo único criado por Coppola e Mario Puzo.

(The Godfather: Part III, Francis Ford Coppola, 1990)
(The Godfather Coda: The Death of Michael Corleone, Francis Ford Coppola, 1990/2020)

Notas:
Versão de 1990: ★★★☆☆
Versão de 2020: ★★★☆☆

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Veja também:
Bastidores: O Poderoso Chefão – Parte 3

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