Mank, de David Fincher

A placa com o aviso “não ultrapasse”, na abertura de Cidadão Kane, diz muito sobre a vida do magnata Charles Foster Kane, na proposta de Orson Welles para seu filme de 1941: desde os primeiros instantes, nós não teremos acesso a tudo, não chegaremos ao centro daquele reino, o qual estamos proibidos de entrar. Dependemos dos olhos dos outros.

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Um adendo: a exceção, por mais paradoxal que seja, chega logo após o “não ultrapasse”, com a morte do magnata e sua palavra enigma: Rosebud. A Hollywood clássica está ali esculpida, em seus dias derradeiros, no castelo empoeirado, no homem solitário e depois morto, no zoológico particular, no clima de filme de terror.

Sensação semelhante chega com Mank, de David Fincher, sobre o roteirista de Kane, Herman Mankiewicz: para ter acesso a esse mundo distante, ao castelo para além dos muros e da placa de “não ultrapasse”, precisamos do cicerone, chamado por alguns, ao longo dessa jornada, de “bobo da corte”; é ele quem alegra, mas quem carrega verdades.

Aos milionários encastelados com estrelas de cinema a tiracolo, normal que se imponha o intelectual falador, alguém cuja acidez vem em sua forma “aceitável”, embalada à comédia, carregada pela inteligência do homem letrado. O magnata William Randolph Hearst gosta de ouvir Mank falar e chega a aproximar seu talento ao de Shakespeare.

O que garante ao roteirista, depois das salas dos estúdios, uma cadeira na longa mesa de jantar do magnata da imprensa. Passa a figurar nas festas regadas a luxo, a poucos metros dos deuses do dinheiro nessa Califórnia cafona de obras de arte importadas, de animais exóticos no quintal, a dividir espaço com a realização de um filme.

O acesso ao mundo imperial dá a Mank a visão do intruso aceito, do prosador (quase) sem limites, do experiente nas coisas do mundo que agora chega aos interiores do reino para contar a diferença entre comunismo e socialismo, traçar paralelos entre Hearst e Quixote, avisar o quanto os idealistas deixam-se corromper pelo poder.

Fincher, com roteiro de seu pai, Jack, conta-nos mais. Seu Mank precisa se vingar dessa indústria – entre cinema e comunicação de massa – voltada a eleger políticos de estimação enquanto torna o público infantilizado. Cidadão Kane é golpe duplo: a chegada de Hollywood ao cinema adulto, a vida infeliz do magnata do jornalismo.

O protagonista – entre os corredores dos estúdios, os jardins intermináveis dos palácios, as bebedeiras que o permitiam suportar tudo isso – percebe o quanto é nociva a mistura entre política e entretenimento, e como isso foi fundamental para eleger um líder de direita, a defender as pautas do mesmo Hearst e do odioso Louis B. Mayer.

Mank senta-se à mesa com esses homens graças às convenções da História, ou ao que une a inteligência e a sagacidade à corrente dos macacos tocadores de realejo que os donos da banda (os milionários) precisam empunhar. Mank recusa o show esperado, diz verdades inconvenientes e ainda vomita no chão lustrado da sala de jantar.

É o convidado indesejado, mas o melhor cicerone. Alguém que escreveu um roteiro para peitar os barões de seu Estado e de seu país, na companhia de um jovem gênio do rádio, dos palcos e agora do cinema: Orson Welles. Mank, em preto e branco, pode ser interpretado como o pesadelo de um homem bêbado com algumas virtudes; estamos sempre impedidos de enxergar pelo véu lançado à tela. “Não ultrapasse.”

Fincher retorna à farsa do cinema popular feito nos anos da Grande Depressão, quando Hollywood aspirava levar alegria – seu grande serviço – à massa miserável. Os estúdios faziam com que as pessoas acreditassem no que eles quisessem. “Você pode fazer o mundo jurar que King Kong tem dez andares de altura e Mary Pickford é virgem aos 40 anos, mas não pode convencer eleitores famintos que um vira-casaca socialista é uma ameaça para tudo o que os californianos prezam?”, questiona Mank, com garras polidas, a Irving Thalberg.

O “vira-casaca” é Upton Sinclair, candidato a governador, terror dos magnatas, socialista que estaria expulsando os estúdios (os empregos) da Califórnia. Ao sair de um cinema, Mank assiste a uma parte de seu discurso. Como em outros poucos momentos no filme, o roteirista descarta o sorriso e o cinismo que lhe definem. De repente, Gary Oldman, esse ator perfeito, é visto perante o que acredita, suas ideias e sua atração.

Para palácios e estrelas de cinema, meninas enjauladas como Marion Davies (Amanda Seyfried), Mank saca sua versão faladora e incorreta. A atriz em questão, companheira de Hearst (Charles Dance), gosta de ter o roteirista por perto. Nesse reino de falsidades, inacessível, o convidado identifica sua nação como pântano, não como playground.

(Idem, David Fincher, 2020)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O significado de Rosebud, segundo Orson Welles

2 comentários sobre “Mank, de David Fincher

  1. Impressionante seu conhecimento ”Palavras de Cinema” . Acho que vc devia escrever, produzir, dirigir um filme sabia ! Seria sucesso absoluto ! Vc sabe detalhes, caminhos, impressões, expressões, tuuuudo ! Vai…se joga …vc merece todo reconhecimento !!!

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