Pacarrete, de Allan Deberton

A grandeza de algumas personagens consideradas desequilibradas está justamente no que aos outros escapa: o universo particular que elas habitam. Não que os outros não tenham um mínimo de humanidade, ou que não possam, mesmo em menor instante, desfrutar de seus contornos e sonhos. É que eles envelheceram.

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Pacarrete – perdoem o clichê – não desiste do sonho e, tão embrenhada, recusa a realidade da cidade quente e de aspectos antigos, de fábricas abandonadas no entorno, de festas regadas a forró. A personagem prefere seu próprio mundo afrancesado onde apenas ela tem entrada garantida. Pacarrete dança com a vassoura como se flutuasse.

Aos demais o mais fácil é pregar nela, personagem-título da obra de Allan Deberton, o carimbo de “pessoa com deficiência”. Pois esse pequeno e belo filme brasileiro oferece não mais que sua indefinição, sua resistência àquilo que não a traduz ou a reflete, àquilo que todos estão condicionados a seguir – menos ela, essa senhorinha nervosa.

A protagonista foi bailarina e agora mora na pequena Russas, no Ceará. Ainda guarda suas sapatilhas, seus discos, seu piano, seu filme em VHS e sua caixinha de música. Seu apego ao passado faz com que destoe; sua estrutura magra não deixa prever suas explosões de fúria, também a voz forte voltada a todos que não a compreendem.

Às portas da festa de aniversário da cidade, Pacarrete quer levar ao povo local sua apresentação de balé. A secretária de Cultura do município tenta escapar dela, que chega a saltar na frente do carro da autoridade, aos gritos, para ser ouvida. Ambas brigam e a protagonista é deixada no meio da estrada, próxima à carcaça de uma fábrica.

Sozinha de novo, agora distante, ela passa pelo velho prédio, por sombras, entre paredes, pelo labirinto que certamente a faz pensar em tudo o que foi perdido e em todos que habitaram tal esqueleto. Pacarrete volta-se à memória das estruturas físicas, dos objetos, dos espaços perdidos, à revelia dos que preferem esquecer.

Não à toa, prende-se na própria casa ao se ver sozinha, sem a irmã, na parte final. Sua reclusão não está relacionada à fraqueza, tampouco à impossibilidade de encarar os outros. Essa pequena grande senhora não comunga mais com a realidade que às vezes bate à porta, na forma das crianças que tocam a campainha, dos homens festeiros que urinam na rua, do “príncipe encantado” ainda disposto a ouvi-la, vivido por João Miguel.

A arte de Pacarrete salva e aprisiona. Em cena mais que simbólica, ela coloca uma caixa de som na sacada de sua casa, voltada à rua, para que a canção francesa rivalize com o forró popular. E desse embate nunca sai um filme elitista: os outros – quase invisíveis, apesar de algumas exceções – não são o problema, nem o que eles consomem.

O mundo que se deseja habitar nos leva à França. Quando Pacarrete passa pelas pequenas ruas da cidade, pelas lojinhas coloridas ou pela mercearia, voltamos ao sonho de Jacques Demy de 1967, Duas Garotas Românticas. É automático, ainda que não se revele. Estão ali sem estar: o musical, a festa popular, dançarinos, coreografias, Deneuve e até Gene Kelly.

Se a personagem brasileira precisa tanto do sonho, não é exagero emparelhar Russas e Rochefort, agora não mais com mágica ou fuga possível no encerramento, mas com prisão, saída ao teatro sem público, sem aplauso, de luzes direcionadas ao palco, exalar do último suspiro da bailarina presa à escuridão.

A eterna Macabéa Marcélia Cartaxo encontra outra personagem gigante. Sua interpretação atropela a caricatura. Entrega uma mulher que, sem esforço, com frases de efeito, não quer depender de ninguém, ignorada – tal como Macabéa – pelos responsáveis pelo barulho da cidade, deselegantes e anônimos que não a compreendem.

(Idem, Allan Deberton, 2019)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Divino Amor, de Gabriel Mascaro

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