Rede de Ódio, de Jan Komasa

O rapazinho ao centro busca poder e reconhecimento sem se dar conta que anula a própria alma. Seu trabalho é fomentar o mal às sombras, sem aparecer, no esgoto das redes sociais. Acabar com a carreira e com a vida de alguns. Em determinado ponto, anula-se, dissolve-se, sem qualquer emoção. Apático, não tem vida, como quer o diretor Jan Komasa.

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Em seu Rede de Ódio, com roteiro de Mateusz Pacewicz, o realizador volta-se quase inteiramente a esse garoto, Tomasz (Maciej Musialowski), chegado a ouvir o que os outros dizem, a plantar grampos, a invadir vidas alheias, a destruir o que lhe pedem. Sua meta é chegar ao topo de sua empresa e, de quebra, conquistar o coração da menina amada.

Esse ser é de difícil definição. Sua forma passa naturalmente pelo ressentimento: no início, assistimos sua humilhação ao ser expulso da universidade na qual cursava direito. Havia plagiado outro trabalho, algo inaceitável à banca educadora. Aos que lhe fitam, o menino tenta se reerguer, revelar humildade, e ainda pede autógrafo à professora.

Em seus lances retóricos, ao longo da obra, ao confrontar pessoas, diz ter estudado a letra da lei. Logo ele, protótipo do pior dos tempos correntes, jovem que ainda chora – sozinho, à noite, à frente de seu único companheiro: o computador – enquanto destila, por outro lado, as bases dos planos para atacar e destruir reputações, até mesmo matar.

Em cena curiosa, ele descobre ter ganhado o novo emprego após a demissão de um rapazinho como ele, com seus trejeitos, expulso da agência de comunicação. Ganha sua cadeira e, perspicaz em maldades digitais, internet adentro, logo conquista outro cômodo, mais aos fundos, onde são dados aos “especiais” como ele os trabalhos mais sórdidos.

Musialowski está à altura de seu Tomasz, justamente pequeno. Para ele, precisa ser alguém sem ter o que ceder, para nós alguém digno de pena – certamente o rato cujas lágrimas, em vão, queremos entender. Seria mais fácil considerá-lo produto do meio, do ódio, do extremismo que corre as ruas sob a fumaça vermelha, como se vê no início.

Para Tomasz, inegavelmente esperto, movimentar a turba fascista – onde cabem os nacionalistas, os antissemitas, os anti-imigrantes, os conservadores no mais baixo sentido para o termo – é tarefa fácil. Ele agarra com os olhos, depois no interior de um game, o idiota desalmado que quer atirar nos liberais, nos progressistas, igualmente um ressentido.

A própria rede social concede as ferramentas certas: em uma sequência feita à montagem agressiva, entre closes e telas de computador, êxtase e cliques, Tomasz convoca duas manifestações ao mesmo tempo: uma para democratas, outra para radicais. Ambas no mesmo dia, no mesmo horário, em rota de colisão. Para que ele, entre os primeiros, fingindo ser o que não é, assista seu feito sem poder se gabar da autoria.

O pequeno e odioso protagonista aprendeu a entrar pela porta dos fundos, a quem os estudos, até o ponto em que os levou, foram pagos por uma família rica. A menina que ele corteja é dessa família. Aos olhos burgueses, ele é o pobre esforçado, convidado para se pôr ao fundo, para que em algum momento os residentes apontem ao produto de sua filantropia.

Nem de um lado nem de outro no confronto de manifestações, Tomasz é filho das falsas identidades, dos games que permitem que jovens impotentes assumam uma segunda vida, personagens com poderes e monstros para derrubar. É no jogo em rede que ele consegue se aproximar de um extremista e convencê-lo a matar um político liberal.

O filme de Komasa expõe uma sociedade em que a política real, benéfica, perdeu a vez para vídeos de lacração, notícias falsas, para um mundo digital que fez nascer algo como Tomasz, ainda capaz de se forjar o herói de sua própria tragédia e, mais uma vez, sentar-se à mesa da família rica (agora parte dela) e até ganhar o coração de sua herdeira.

(Sala samobójców. Hejter, Jan Komasa, 2020)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Corpus Christi, de Jan Komasa

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