Os 7 de Chicago, de Aaron Sorkin

Em sua aparente fraqueza, Tom Hayden destila a alma que Aaron Sorkin tenta conferir a Os 7 de Chicago: ele pode vacilar, pode mesmo parecer distante ou disposto a desistir, e nada impedirá que aceitemos seu avanço ao papel ao qual foi destinado. O diretor e roteirista elege um herói discreto, coadjuvante, alguém que sabe a hora certa de falar.

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Seu contraponto é Abbie Hoffman, o hippie que aprendeu, como nós, a aceitá-lo: é preciso que o revolucionário dê seu aval, permita que o herói tenha sua estatura, como se dissesse que, na democracia americana, o outro pode servir a todos. Tanto Hayden (Eddie Redmayne) quanto Hoffman (Sacha Baron Cohen) estão no banco dos réus, acusados de incitar a turba contra a polícia na Chicago de 1968.

O fato é histórico. A composição, em maior parte, puramente fictícia. Sorkin utiliza o caso como ponto de partida para sua obra liberal. Vale lembrar: no cinema, tomar lado não é um problema, mas parte do jogo. O problema é que Sorkin abusa de estereótipos, da suposta História contida na forma dos seres de gesso aos quais dá um pouco de oxigênio.

Sua alma, Hayden, é diminuta. Sua graça, Hoffman, é ultrajante, chata, a pior representação que se pode esperar do movimento hippie: o boboca chapado que ocupa o tempo para fazer comédia, personagem cômica – como seu parceiro, interpretado por Jeremy Strong – em um filme de verniz, que se pretende sério, “de tribunal”.

O aspecto leva-nos a pensar no tribunal como resumo da nação, à medida que suas dimensões precisam sempre extrapolar, ao passo que seus atores e espectadores precisam sempre partir para a frase ou o gesto definitivo. Gritam, rasos como são, à História. Alguns grandes filmes de tribunal precisam de bem menos: bastam uma sala e pessoas reais.

Hayden e Hoffman fazem parte dos sete acusados. Foram para Chicago para protestar pelo fim da Guerra do Vietnã, às portas da convenção do Partido Democrata. Ruas e parques convertem-se em campo de guerra; a turba acusa a polícia de incitar a disputa; as autoridades miram os líderes dos protestos, vendo em suas ações a formação de quadrilha.

Por trás, uma disputa política envolve democratas e republicanos. Richard Nixon acaba de assumir a presidência. O tribunal divide-se entre liberais e conservadores. Os primeiros são os perseguidos, os segundos são os carrascos brancos em figurino engomado, na companhia de belas mulheres que, como lembra Hoffman, ainda habitam os anos 1950.

A vitória dos liberais depende da astúcia de Hayden, contra o juiz parcial (Frank Langella) em redoma cujo vencedor está dado. Depende da palavra – dos nomes, sua arma final – para enlouquecer o homem que não suporta o peso da morte dos soldados americanos no Vietnã, a quem sobra bater o malhete contra a mesa, enquanto a câmera distancia-se.

Tal composição, como tantas, é parte dos rascunhos conhecidos de Sorkin. Seu suposto malabarismo com palavras e ações, na incansável montagem alternada, não empolga. Entre drama e comédia em menor medida, Os 7 de Chicago termina como um enlatado para se colar à ideia de um país justo – contra tudo que aponta ao oposto.

Como o advogado de defesa, Mark Rylance é o tipo que olha para baixo, dono de cabelos sebosos, que desacata o juiz para dizer o óbvio em tempos em que a obviedade soava abusiva. Alguém com toques de gênio, de grandeza que não se revela fácil – do mesmo material que esculpe os outros cansativos heróis desse filme, a exemplo de Hayden.

Comparado ao anterior A Grande Jogada, Os 7 de Chicago tem estrutura mais coerente, caminho menos trepidante, personagens mais sólidas. Sorkin, a despeito das tantas maracutaias em salas fechadas, dos jogos de poder, ainda acredita nos homens e na palavra. O hippie chega a citar uma passagem bíblica. Soa inocente, para não dizer apelativo.

(The Trial of the Chicago 7, Aaron Sorkin, 2020)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
A Grande Jogada, de Aaron Sorkin

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