Você Não Estava Aqui, de Ken Loach

Ainda sobra tempo para sorrisos e descontração entre tanta dor e tanto choque. A família, com seus altos e baixos, termina unida. O pai está machucado, a mãe cansada. O pai precisa trabalhar – condicionado como está, castigado como parece, contra o sistema que, impiedoso, cobrar-lhe-á sua parte, contas, dívidas pendentes.

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Esse homem louro, quase laranja, é Ricky (Kris Hitchen). Visto a distância, soa jovem; perto da câmera, saltam a pele gasta, o sofrimento de alguém que, em Você Não Estava Aqui, confessa ter mais músculos que cérebro.

Mais que um homem grande, careca e igualmente impiedoso, pelo sistema respondem as máquinas. Primeiro, os veículos; depois, as prateleiras que alimentam vans com objetos que devem ser entregues; na ponta, a pequena máquina que serve de GPS, vigia, da qual o pobre Ricky depende para continuar trabalhando. Ele faz entregas. Tempo é dinheiro.

A ilusão criada pelos serviços de aplicativo é o foco de Ken Loach: homens como Ricky acreditam ter o próprio negócio ao comprar um veículo e servir à máquina de entregas, tão valiosa mas tão indiferente aos problemas de gente simples como ele, gente que tem família, que deveria ter mais tempo para viver ao lado da mulher e filhos.

O homem com jeito de garoto torna-se ele próprio parte da mecanização exigida. Parar para compreender o problema do filho, o tempo que lhe pede a mulher, até mesmo urinar, é sair da linha de produção, é desobedecer o pequeno objeto que nada fala, que apenas lhe emite sinais e, segundo a segundo, lembra-lhe o tempo a ser percorrido.

As entregas levam à rotina interminável, 14 horas por dia ou mais. À margem, o protagonista sente-se dentro, franqueado (como se fosse grande coisa), a serviço da rotina que não o deixa moldar a própria vida. Segundo Loach, com roteiro de Paul Laverty, o novíssimo capitalismo faz com que os servos acreditem estar no controle.

No fundo, o jogo é o mesmo, ou mais cruel: o dispositivo móvel permite que o mesmo servo despregue-se sem nunca se deixar perder de vista, ser controlado, à medida que serve à ferramenta dada pelo patrão que prefere evitar esse nome.

Próximo ao fim, Ricky pergunta à mulher: “O que estamos fazendo um com o outro?”. Ela, Abbie (Debbie Honeywood), é mais calma, tem fala lenta, atua como cuidadora de idosos, de casa em casa, também em luta contra o tempo. Enquanto no trabalho do marido aflora a modernidade dos aplicativos, no dela a presença humana é indispensável. É preciso tratar todos como os próprios pais, diz Abbie.

Para além desse abismo estão a família, o retorno para casa, momentos (não muitos) de união. Loach golpeia-nos ao mostrar que homem, mulher e filhos são rendidos, quase obrigados a aceitar as coisas como são – incapazes de evitar que o pai, ao fim, machucado, humilhado, continue a seguir ao mesmo depósito, a ser a máquina que o sistema exige.

Essas pessoas – nesse espaço cinzento, em ambientes nos quais o branco metálico produz pavor – ainda arrancam sorrisos, em estranha zona de normalidade, como no ótimo e anterior Eu, Daniel Blake. Em algum ponto descambam à desordem. É preciso perceber que o sistema não faz sentido, o que cabe ao filho de Ricky, o adolescente Seb (Rhys Stone).

O garoto expressa nas ruas, nos muros, o que sente. Ele picha. Em cena decisiva, questiona o pai se sua rotina de entregas vale a pena. Por que estudar se isso, nesse sistema, significa adquirir dívidas para pagar anos a fio? Por que seguir trabalhando se isso leva invariavelmente a um beco sem saída, sem dinheiro, sem vida? O filho responde com tinta no concreto, maneira de confrontar as barreiras que o pai não quer enxergar.

(Sorry we missed you, Ken Loach, 2019)

Nota: ★★★★☆

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