Disque M para Matar, segundo Scorsese

Disque M para Matar é um filme maravilhoso de se assistir – uma lição de decupagem – tanto que o aconselho frequentemente a meus estudantes. Foi vendo-o enfim, em alto-relevo, há dois anos, que o compreendi. Eu tinha doze anos quando o vi na estreia, em uma versão “plana”. Eu gostei bastante do filme, mas se parecia com teatro. Havia a cena do assassinato, o suspense ao redor do marido: conseguiriam encurralá-lo ou não? O que mais me havia fascinado era a utilização da cor e do quadro, e depois da narrativa. Além do mais, eu adorei Robert Cummings e Ray Milland. Eu nunca achei Grace Kelly uma grande atriz (eu preferia Barbara Stanwyck) e eu não compreendia a obsessão de Hitchcock por essas loiras de olhos azuis. Mas gostei bastante de Grace Kelly em Janela Indiscreta. Disque M para Matar sempre me fascina de um tal modo. Quando Ray Milland explica ao assassino como ele quer matar sua mulher, observe como Hitchcock muda de eixo, como o valor dos quadros varia segundo o diálogo. O mais importante é o momento onde ele decide mudar o valor do quadro. É muito sutil. Ele não coloca um plano fechado repentinamente na tela. Ele move um pouco a câmera, ele ligeiramente muda o valor do quadro.

 

(…)

 

Quando eu me sinto um pouco cansado, coloco Disque M para Matar. É como se eu escutasse uma fuga de Bach: você sabe, quando queremos adivinhar quando começará a frase que se seguirá, e onde parará aquela que estamos escutando. É o mesmo prazer. Eu aconselharia aos estudantes de cinema analisar os filmes de Hitchcock, de Welles e de Ford.

Martin Scorsese, cineasta, em entrevista realizada por Thierry Jousse e Nicolas Saada (Londres, 3 de fevereiro de 1996; publicado originalmente em Cahiers du Cinéma em março de 1996 e republicado, com tradução de Ciro Lubliner, no livro-catálogo da mostra Scorsese, do CCBB; pgs. 60 e 61). Acima e abaixo, Grace Kelly em Disque M para Matar.

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Um comentário sobre “Disque M para Matar, segundo Scorsese

  1. O clássico que começou a parceria com Grace Kelly com o cineasta e para mim a melhor atriz do Hitchcock.
    Creio que foi o único em 3D que o Hitchcock fez.
    Foi o segundo clássico que eu assisti e o primeiro do Hitchcock que eu vi.

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