Assalto à 13ª DP, de John Carpenter

Na melhor tradição do faroeste, os vilões não precisam ter personalidade. Não há um líder do outro lado; ao contrário, há a manada com a missão de invadir, destruir, dar vez ao caos. Não falam nada. Como os índios que atacavam diligências com homens brancos e damas em vestidos longos, levam ao figurino o oposto: vestem boinas, são punks.

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Estrangeiros também. Assemelham-se a latinos ou orientais, o pesadelo da América branca que clama pela farda para dar lugar à paz, à vizinhança calma na qual o vendedor de sorvete, em veículo quadrado, música agradável e infantil, ainda resiste no ofício – em Assalto à 13ª DP, o traço último do país normal invadido por anormais.

John Carpenter, tão enérgico quanto Mario Bava em seu Cães Raivosos, expõe as consequências do bando selvagem, da loucura compartilhada até no sangue, na viagem maldita na qual cabem todos os atores em questão – menos a menina que comprava o sorvete, morta de maneira gratuita por psicopatas a bordo de um carro, atrás de vítimas.

Os criminosos são perseguidos e depois perseguem o pai dela, que faz justiça com as próprias mãos. Pobre homem comum em dia comum, que parou para fazer uma ligação enquanto a filha comprava o sorvete. Seu destino será a delegacia prestes a fechar, no último dia antes de mudar de endereço, mesma data em que um policial é convidado a comandar o local.

As diferentes histórias encontram-se apenas no limite da ação: os policiais não sabem o que aquele homem em choque fez ou presenciou; os criminosos do lado de fora não deixam claro se já tramavam invadir a delegacia; os novos prisioneiros que chegam ao local – após um deles ficar doente – são igualmente vítimas do acaso enquanto eram transportados.

Interessa a Carpenter o movimento, estado selvagem no qual todos se encontram: trata-se de sobreviver àquilo que ataca em silêncio, que se faz sentir apenas aos atacados – como se a delegacia no meio da cidade grande de repente se convertesse na delegacia da minúscula cidade de um faroeste, em meio ao nada, com pistoleiros encurralados.

Os homens do lado de fora não são homens. São números. Podem ser zumbis ou um vírus mortal, constatação de que essa mesma delegacia e seus atores tantas vezes reconhecidos em fitas policiais estão agora à beira da ficção científica. Carpenter adora aprisionar personagens, como faria em Enigma de Outro Mundo e Eles Vivem.

Sua lição hawksiana, debruçado em Onde Começa o Inferno, como o próprio nunca escondeu, remete aos atores de dentro, à pressão que sofrem, ao estado em que esses membros aceitos – americanos, policiais, bandidos ou pais de família – nunca deixam escapar o signo do gênero ao qual servem, a expressão do espetáculo.

Por 90 minutos, a Nova Hollywood ver-se-á dobrada ao clássico, a este prestará veneração. O débito não se extingue à luz da violência urbana. O faroeste retorna como em um movimento cíclico, no sentimento do homem negro honesto (Austin Stoker) que, em noite infernal, torna-se camarada do prisioneiro branco (Darwin Joston).

Ao lado de Laurie Zimmer, os heróis emergem da fumaça e fazem pose. Piscam para a geração de Tarantino como se soubessem da semente ali plantada: trata-se de livre encenação, efeito delicioso que agora toma o cinema moderno de assalto. Na guerra contra os invasores, os heróis defendem-se como podem, com algumas poucas balas.

Carpenter não tem compromisso com a realidade. Vista no cair da noite, sua delegacia é como uma mansão mal-assombrada da qual irradiam luzes amarelas, convite ao terror, ao místico, o último refúgio do país atacado pelo inimigo sem rosto. Como nos faroestes, a regra é atirar no que se põe à frente, no que se move, nos selvagens que pululam.

(Assault on Precinct 13, John Carpenter, 1976)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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