Adeus, Minha Concubina, de Chen Kaige

Os holofotes servem tanto à apresentação prestigiada, teatral, quanto ao interrogatório insuportável, ao qual resta apenas a luz estourada. Dois tempos são marcados: primeiro, pela arte, a tradição; depois, pela política, a tortura e o peso da ideologia. A arte sobrevive com algum esforço, aos trancos, contra bandeiras e gritos de guerra.

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Panfletos são lançados no teatro durante a apresentação de Cheng Dieyi (Leslie Cheung), no papel da concubina. Os japoneses ocupam a China durante a Segunda Guerra e assistem ao espetáculo. Dieyi é indiferente ao dono do trono, ao poderoso que, ao alto, põe-se a bater palmas. Segue na sua famosa personagem em Adeus, Minha Concubina.

Durante anos ele viveu a mulher em bela maquiagem, cabelo falso correndo por bochechas brancas, brilhantes penduricalhos. Canta como se miasse, faz-se boneca de porcelana, e em estranha paixão, afinco, vivo em outro universo – à parte da política e da ação das ruas. Seu parceiro, por quem é apaixonado, é Duan Xiaolou (Fengyi Zhang).

Por décadas, fizeram as mesmas personagens, à forma da China tradicional, de velhas histórias e lendas, a encantar todos, à exceção dos comunistas da Revolução Cultural – aos quais os mesmos penduricalhos soam perversos. Toda uma forma, então, sucumbe à outra, seguida pela turba descontrolada, pela política persecutória 

Se essa arte representa luxo, é ela que o diretor Chen Kaige persegue o tempo todo: valoriza-se a imagem de seres cobertos por tinta e cores fortes, seres que, banhados por outro estado do corpo, por algum transe incomum a todos, fixam no imaginário popular um país que sobrevive graças à sua arte. A política passa, pisoteada pelas ondas.

Mais que luxo, Kaige corre atrás da grandeza. Tem a seu favor cenários impecáveis e fotografia invejável. Em momentos soa um Visconti oriental. Não por acaso, vale pensar na sequência dos panfletos sobre o palco e o público do teatro, momento que nos remete a Sedução da Carne, que inicia com situação semelhante.

De 1954, o filme de Visconti também retrata um momento de ocupação, os últimos dias dos austríacos na Itália. Surgem ali o amor proibido, o conflito entre política e sentimentos, paredões escuros, fuzilamentos no meio da noite, aspectos que fazem da grande cidade o ambiente perfeito para a criação de fantasmas.

Em efeito que beira o horror, o fantasma carregará a História – com “h” maiúsculo – em seu pior formato: os humanos, tão vivos, apequenam-se sob bandeiras e marchas militares, as cores da maquiagem ou dos figurinos perdem suas funções, o teatro dado como irreal, como interpretação, perde espaço para fardas e baionetas.

Desde pequeno, Dieyi foi protegido pelo amigo Xiaolou. Cresceram em uma escola de artes. Foram treinados como lutadores, com equilíbrio, espancados ao menor sinal do erro, do texto mal decorado. Prosperaram e ficaram famosos, mais tarde, graças à peça Adeus, Minha Concubina – o primeiro no papel da mulher, o segundo como rei.

Xiaolou conhece uma bela mulher em um bordel, Juxian (Gong Li), de quem fica noiva após uma brincadeira noturna, ou forma de escapar da perseguição dos homens bêbados que frequentam o mesmo local. Para a tristeza e a inveja do parceiro, a mulher continuará a segui-los, a assistir às apresentações do palco e às das ruas, em ebulição.

Quando levado ao tribunal de tons cinza e marrom, acusado de colaborar com os japoneses, Dieyi prefere o martírio. Não sem passar a mão sobre a boca, com tinta vermelha, para marcar seu universo: a cor de seu teatro, de sua segunda pele, não a da política da suposta igualdade e renúncia aos bens materiais e à beleza da arte.

Dieyi é frio, silencioso, enigmático. Tem o rosto moldado à concubina que, ao fim de cada apresentação, precisa tirar a vida pelo rei, para o rei. Não há saída para além desse gesto, o encontro com a espada que atravessa o tempo para cumprir – do desenho nos créditos de abertura à tragédia do fechamento – sua função na montagem teatral.

(Ba wang bie ji, Chen Kaige, 1993)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Lancaster e Visconti

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