E la Nave Va, de Federico Fellini

O navio – a despeito do cenário escancarado, do fundo falso, do plástico ou papel que, segundo Federico Fellini, pode representar sua armadura espessa – tem densidade descomunal. A bordo dele, um rinoceronte surge leve, tão vivo quanto os bonecos humanos. Essa nave de gente ensebada é a antessala da Primeira Guerra Mundial.

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O mestre italiano dá início a E la Nave Va como cinema mudo. As pessoas que seguem à guerra sem saber, sem pedir, servem a essa arte em seus primeiros dias. A estética é calcada no plano e depende das ações humanas à frente. As pessoas corporificam o passado, ao mesmo tempo que o registro faz-se matéria de um tempo perdido.

A navegação converte-se em funeral, o navio em túmulo. Em terra é possível ouvir o som do cinematógrafo, leve agitação da máquina que, depois, serve justamente ao enterro da grande cantora que nunca foi enterrada. Um de seus seguidores assiste às suas imagens pela projeção do cinematógrafo à medida que o cômodo enche de água.

Artistas de ópera reúnem-se na viagem para conceder à morta seu último desejo: ter as cinzas lançadas ao redor de uma ilha, às águas do oceano. Fellini outra vez questiona o absurdo por trás dos ritos – ao efeito cômico em tom um pouco mais baixo, mais fúnebre.

Todos em figurinos escuros. Todo um universo composto por materiais em decomposição, mofados ou enferrujados. O navio como museu de bonecos de cera, como os amigos de Norma Desmond em sua mansão, isolados mas resistentes em seus jogos de carta. A leveza do espectro confere a eles não a face do terror, mas a da maquiagem frágil.

À comédia lança-se a tristeza. Em cena, a melancolia. A classe artística em questão era a superclasse da época, a viajar com reis e princesas, aqui figuras meramente decorativas. Difícil não pensar na sequência da invasão do palácio em Amarcord, delicioso hiato como representação da quebra do inatingível: o homem pobre no domínio da realeza. 

Em E la Nave Va, as figuras nutridas pela arte estão igualmente presas ao vazio do navio supostamente protegido e luxuoso. Sobram situações estranhas. Um dos convidados – em momentos transformado no mestre de cerimônias, sem saber o destino da tripulação – é o jornalista (Freddie Jones), dentro e fora ao mesmo tempo. 

Enquanto procura histórias desse espaço, encontra uma jovem em roupa branca, espécie de musa, fantasma angelical à contramão do ambiente mórbido. A moça deixa-se levar por um sérvio, um náufrago. Abrigados no navio, os mais pobres – para muitos, os indesejados – encontram espaço do lado de fora, dormindo ao léu, pregados na janela da sala de jantar enquanto os ricos banqueteiam. A cena em que as cortinas são fechadas é cruel.

A menina angelical aproxima-se do suposto revolucionário sérvio. À história que bem se ajeita às lendas, a que se deseja contar, é ele quem lança a bomba contra o couraçado austríaco. É quem se encarrega da guerra, o festim a pôr fogo em tudo – primeiro, claro, no grande navio-caixão prestes a ser levado à cova, a nave felliniana.

Com E la Nave Va, Fellini desfralda o que havia na imaginação dos provincianos de Amarcord, a postos em seus barcos, no mar, para a passagem do Rex. Revela enfim o que havia na gigante caixa metálica que cruza o oceano, de pingos brilhantes, dona de um interior que cheira a mofo, ocupada por pessoas em derradeira celebração.

(Idem, Federico Fellini, 1983)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Histórias Extraordinárias, de Vadim, Malle e Fellini

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