Lindinhas, de Maïmouna Doucouré

A erotização precoce está ligada à repressão religiosa. Os dois lados encontram-se o tempo todo na protagonista de Lindinhas, Amy (Fathia Youssouf). De família muçulmana, ela convive com os rituais do véu e das orações, ao mesmo tempo, com os da dança em um grupo de garotas com roupas chamativas e de exposição nas redes sociais.

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O que parece desnecessário – a exposição das crianças – é, para a diretora Maïmouna Doucouré, uma denúncia desse mundo de extremos ao qual meninas como Amy estão expostas, nessa necessidade de se afirmar a liberdade que, quando posta, excede. A protagonista não pode dosar essa entrega quando, do outro lado, sua cultura familiar e religiosa igualmente não dosa a repressão do espaço machista.

Não estranha que as pequenas dançarinas chamem tanto a atenção de Amy: na escola ou na rua, fazem o que querem, ou parecem fazer; confrontam os outros e, com os corpos, dão um recado – direta ou indiretamente – incômodo aos freios que as circundam. Ainda assim – com suas confusões e confrontos internos – não deixam de ser crianças.

Não gostamos de ver essas meninas dançando. Em alguns momentos o que parece brincadeira converte-se em movimento erotizado. Mas o filme representa essas confusões até com certa maestria, ao propor que Amy, ao contrário do que diz sua mãe quando ela menstrua pela primeira vez, não é uma mulher formada. As atitudes e imagens não mentem.

Para a mãe, bastam o sangue, o sinal, a indicação da passagem que reduz a filha ao corpo pronto, talvez, para um futuro casamento. Em sua casa, Amy está proibida de entrar em um cômodo. No início, ela fica sabendo que seu pai deixou sua mãe e, com o consentimento de sua religião, casará com outra mulher. Provavelmente terá o quarto para sua união.

A porta fechada, sem maçaneta, é uma interessante representação dos pequenos templos moldados a rituais intocados, às crenças, ao sagrado; no outro polo, o profano é ditado pela exploração do corpo infantil, ou mais: pela mesma Amy que, sem total noção sobre seus atos, encontra na dança sua própria maneira de arrebentar a porta.

A mãe da menina não pode entendê-la. As outras meninas – donas de suas próprias coreografias, organizadas em um time para vencer um concurso de dança, escondidas em um local para ensaios – fazem com que Amy acredite se compreender, ou parecem compreendê-la nessa confusão em que o que vale é fazer barulho, ser o barulho.

Não estranha que a extrema direita tenha voltado seus canhões ao filme de Doucouré: os tacanhos sempre têm dificuldades para diferenciar a sexualização como livre exposição e como crítica a essa sociedade de crianças de pais e mães ausentes, de religiões que punem e amedrontam. Ou de crianças que, pelo caminho mais fácil, tentam ser vistas a todo custo.

Essas “lindinhas” estão aí, nas ruas, nos palcos, nas redes sociais – para o delírio dos pedófilos e nosso desprazer. Ocultá-las – ou censurá-las – é fingir que o cinema não serve ao incômodo. Ao contrário do que dizem alguns, não se trata de pornô infantil, mas da sexualização como espetáculo, da audiência a qualquer custo.

(Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Corpus Christi, de Jan Komasa

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