A Despedida, de Lulu Wang

A avó de Billi está morrendo. Ao saber disso, a neta fica sem chão. Seus pais dão o recado e a advertem que a velha senhora, que vive na China, não pode saber de seu estado de saúde. A família opta por seguir a tradição e não revelar à senhora, sorridente e falante, o câncer que, dizem os médicos, deverá matá-la em aproximadamente três meses.

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Os pais de Billi voam de Nova York para a China. A menina, contra a vontade dos parentes, faz o mesmo. O receio dos outros é que ela não consiga esconder a tristeza e que a avó descubra a farsa. A família, em A Despedida, tem a desculpa perfeita para essa reunião com contornos de último encontro: o casamento de um de seus membros.

As personagens da diretora e roteirista Lulu Wang, a começar por Billi, são vítimas das tradições; algumas (ou todas) assumem-se fracas, preferem o teatro, a festa de casamento que impõe o véu de felicidade enquanto se chora ao fundo, sem que se possa falar a verdade; todos entendem, e silenciam. A família depende da mentira, diz a criadora.

A China que estoura aos olhos de Billi – também aos nossos – é a dos prédios gigantes, a da modernidade, a do salto no tempo – ainda que alguns vícios, perpetrados pelas tradições, insistam em continuar, a começar pela não revelação do câncer maligno à mesma senhora. Mais que a família, talvez toda uma sociedade dependa da mentira.

O drama da morte é de Billi, não de sua avó. A morte de um país, da cultura que deixou quando pequena, de espaços que, transformados, quase não a deixam recordar. Em momento esclarecedor, ela reconhece seu antigo bairro ao passar de carro pelo local; a avó logo alerta que desse passado não resta mais nada. O bairro tornou-se canteiro de obras.

A família é o que resta de suas raízes – a mesma família que agora a leva ao teatro considerado necessário. Melhor não saber da morte e seguir vivendo com o tempo que resta, sem as dores da mente, creem seus membros. O tio explica: os orientais focam-se no coletivo, não no individual; não se trata de enganar alguém, mas de confortar o grupo.

A Billi retornamos, sempre: não é sobre a morte, é sobre a dificuldade de se encontrar em outra cultura, ou na cultura na qual a moça não se enxerga. Mais americana que chinesa, mas sem negar os laços que deixou, sem deixar de senti-los – já que a mudança para os Estados Unidos foi uma escolha dos pais, quando ela ainda era criança.

A nova China demole seu velho bairro. A avó é um desses resquícios de memória que, percebe a jovem viajante, está perto de ir embora. A senhora como exemplo do velho mundo, ela própria como exemplo de alguém quase desterrada, entre seus sentimentos e os do grupo, tendo de encarar a morte na festa de felicidade do casamento.

Pequenos momentos explicam muito. Em um deles, Billi encontra um pássaro em seu apartamento, em Nova York. Ao invés de levá-lo para fora, ou de cuidar dele, prefere apenas abrir a janela e aguardar que o mesmo voe. Interessante representação da forma como a moça lida com o inusitado (a morte): para ela, melhor é tomar alguma distância e esperar que o pássaro (a avó) tome seu rumo sozinho, sem a interferência dos outros.

Em outra passagem ainda mais rápida, Billi depara-se com com alguns homens na companhia de mulheres, no mesmo hotel em que está hospedada. Pela fresta da porta do quarto dos hóspedes, ela observa um espaço de jogos e malícia, a indicar que algumas velhas práticas – do comunismo ao capitalismo de Estado – ainda persistem.

Wang não deixa o humanismo escapar em momento algum. Essa comédia adorável tem em Awkwafina, na pele de Billi, a portadora das tensões, sofrendo calada ao lado da amada avó, interpretada por Shuzhen Zhao. Sobretudo, para perceber que, se não pode carregar o pássaro até a janela ou cuidar dele, o que resta é gritar no meio da rua, encontrar algum alívio.

(The Farewell, Lulu Wang, 2019)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Som da Montanha, de Mikio Naruse

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