Destruir, Disse Ela, de Marguerite Duras

Para fora, ou ao redor, a floresta. Para dentro, algumas poucas personagens posicionadas como peças, a serviço da palavra, no hotel aparentemente vazio. Vivem ali, por tempo indeterminado, dois homens e duas mulheres. Vivem as palavras, a voz profunda, a verbalização da alma – a favor da verdade ou, talvez, da interpretação.

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No cinema de Marguerite Duras, como explica Jacques Aumont em As Teorias dos Cineastas, está em curso a destruição do cinema. O sentido desse fim, bom pontuar, diz respeito às bases nas quais essa arte, por décadas, foi colocada: o espetacular e o trivial. Rejeição “não apenas como espetáculo, mas como barreira a esse potencial do verbo”.

Outra vez Aumont, à luz de Duras: “um filme é verbo, e apenas por aí ele se tornará imagem (daí o papel primordial da escuta de uma palavra em seus filmes)”. Voltar à palavra é o que clama a cineasta, como se vê – ou, sobretudo, como se sente desde o título – ao longo de seu segundo longa-metragem, Destruir, Disse Ela.

Em cena, as quatro personagens observam-se e, às demais, acrescentam camadas. No jogo verbo-visual de Duras nunca é possível saber o que realmente compõe a personagem e o que a ela, por outras, foi acrescentada. O que não diminui sua profundidade: a escrita, como dirá a personagem do escritor, é a História do futuro. Imaginação posta, possível, deflagradora.

“Destruir”, ao que parece, a base do entendimento comum entre as pessoas, partindo dessas quatro figuras enigmáticas, soltas pelo gramado, perto de mesas e cadeiras, próximas da floresta cujo interior, se adentrado, possibilitaria a anulação das regras sociais. São personagens sempre à margem da floresta, a descobrir novos caminhos.

O filme tem início com vozes femininas. Falam das horas, do lugar. A câmera inclina-se e depois gira, como se buscasse um ponto – uma história – para focar. Logo vêm os homens. O escritor é Max Thor (Henri Garcin), companheiro de Alissa (Nicole Hiss). Ele conversa com o judeu Stein (Michael Lonsdale), amante de sua mulher.

O trio recebe a companhia de uma segunda mulher, a personagem mais importante de Destruir, Disse Ela: a traumatizada Elisabeth Alione (Catherine Sellers), isolada para enfrentar as dores causadas por um aborto. É por meio dela que conseguimos enxergar uma história para fora daqueles limites tão bem impostos: é a detentora da tragédia.

A nova mulher entra no círculo. Antes, Stein conta a Max que conheceu uma bela mulher naquele local, em outra situação e tempo. No ano passado? Seria a própria Elisabeth? Ou seria Elisabeth a recriação dessa mulher, acrescida de características dadas pelos outros.

As personagens parecem assumir a vida das outras. A história contada é nova e passada ao mesmo tempo, em jogo de afirmações que nos remete a Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais, com roteiro de Duras: mais que retornar à história que envolve um trauma (antes a bomba, agora o aborto) as personagens propõem uma nova história.

A arte de escrever é a arte do futuro, da reinterpretação. Para Duras, a arte que detona com o cinema convencional para reinventá-lo: enquanto a imagem detém o imaginário, “uma palavra contém mil imagens”, diz Duras, em trecho citado por Aumont.

Elisabeth está à espera “do livro que nunca leu”, da história que nunca viveu. Às margens da floresta na qual as regras são abolidas, ela sobrevive, em preto, como todos, nesse tabuleiro que colhe pessoas para que vivam histórias. Nesse filme propositalmente escuro, os amantes desintegrassem, tornam-se parte do todo, vivem para sempre nos limites daquele hotel.

(Détruire dit-elle, Marguerite Duras, 1969)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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